Planejamento com coeficiente de mangue

Paulista é bicho burro, cartesiano, binário, pragmático. Paulistano é ainda pior. Tem pouco jogo de cintura, fala tudo divididinho e acha que é o centro do mundo. Sou paulista e paulistana de muitas gerações, por isso estou falando de mim mesma. Em contrapartida, o paulista-paulistano é dedicado, focado, pragmático. Planeja e faz. Raramente estoura prazos. Detesta descumprir combinados (ok, tudo na vida tem exceções).

Muito bem, das muitas coisas ousadas que fiz na vida, acho que trabalhar no Carnaval de Salvador — o maior carnaval do mundo — foi o ato mais disruptivo, educativo, revolucionário. Só perde para a maternidade do meu amado Chico. Mas vamos às lições, aos aprendizados e agradecimentos.

Tudo o que aprendi e fiz começou bem graças ao conselho de um querido amigo, André Simões, o Andrézão, então presidente da APA, associação dos produtores de Axé, que foi apresentado a mim por Nestor Amazonas e Mauricio Castro.

Lição 1: pessoas chamam pessoas. E pessoas talentos juntas produzem coisas sensacionais e se tornam amigos para sempre.

Andrezão, que carrega esse apelido por razões óbvias, tem quase 2 metros de altura, chegou em São Paulo com sua doçura e sotaque soteropolitano para nos explicar o que era o carnaval da Bahia. Hoje, quase 10 anos depois, sei que era uma tarefa inglória. O carnaval da Bahia não se explica, se vive. Ele é uma experiência. Incrível, única, pessoal, intangível. Mas Andrezão é um gentleman e muito generoso. Por isso, com paciência chinesa, explicou para um bando de paulistanos moucos como funcionava a maior festa do planeta. Confesso: a gente entendeu muito pouco do que ele explicou. Trouxe números, estatísticas, imagens, comparações. O que ficou para mim, no entanto, foi uma frase emblemática: “não se esqueçam do coeficiente de mangue”.

Lição 2: Deus mora nos detalhes. Essa frase aparentemente boba sintetizava tudo sobre o Carnaval da Bahia e sobre qualquer planejamento de um pequeno, médio ou grande projeto.

O coeficiente de mangue é uma espécie de lei de Murphy do planejamento. Sim, porque tudo pode dar errado sempre. E o errado, em geral, é mais forte e preponderante do que o certo. No caso do carnaval da Bahia, o coeficiente de mangue é a lógica para tudo. Sem ele é impossível imaginar que dois milhões de pessoas são capazes de se divertir, dançar, brincar, beber, beijar, namorar, comer, se locomover por um espaço tão exíguo em apenas seis dias. Mais do que isso: sem o coeficiente de mangue é impossível imaginar que produtores, executivos, empresários, artistas, músicos, clientes, governo são capazes de organizar um evento tão grandioso que dá tão certo e ao mesmo tempo é tão arriscado.

Quando “vendia” o Carnaval da Bahia para marcas patrocinadoras, costumava compara-lo ao Ramadã (xiitas, por favor, não se ofendam). Explico. São dois ou três milhões de pessoas que se dirigem a Salvador para uma peregrinação que dura seis dias. Para muitos dos foliões trata-se de uma religião. Uma profecia de fé ao Oludum, aos Filhões de Gandhi, ao Asa, ao Chiclete, a Jammil e Uma Noites, a Bel Marques, Durval Lelis, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Claudia Leite, Saulo, Luis Caldas…A diferença em relação à peregrinação à Meca é que em Salvador todo mundo bebe, tem homem e mulher, a maioria deles loucos para ser dar bem. E felizmente no solo sagrado, o índice de morte e desgraça é ínfimo em relação às estatísticas de Medina.

Por que isso acontece? Coeficiente de mangue — e claro proteção dos santos e orixás. Esse tal coeficiente de mangue sobre o qual me alertou Andrezão é um item de planejamento que a maioria dos controlers e executivos deixa de lado e, por isso, fracassam. Errar é humano e operações complexas, cansativas e estrelantes estão muito mais sujeitas a ele. Por isso, o jeito de dar a volta por cima antes de cair é prever a queda e ter um plano de contingência para ela. Se nada ocorrer, tanto melhor. Economia de custo. Redução de dano e sucesso na certa.

Meu primeiro carnaval na Bahia foi a minha descoberta da América. Me senti Colombo. Me senti Fernando Magalhães cruzando o estreito de Magalhães e encontrando o Pacífico. Aprendi muito. Mudei muito. Me tornei uma profissional muito mais versátil e eficiente.

Lição 3: o novo é uma dádiva. Esteja sempre aberto a conhecer coisas novas. A experimentar novos modos, novos conceitos, novas práticas e novos sabores. Vale a pena e rejuvenesce.

Lição 4: aplique o coeficiente de mangue em qualquer planejamento de sua vida. Ele reduz a ansiedade e a frustração e proporciona eficiência. Eu garanto.

O coeficiente de mangue é uma espécie de lei de Murphy do planejamento. Sim, porque tudo pode dar errado sempre. E o errado, em geral, é mais forte e preponderante do que o certo.

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3 comentários sobre “Planejamento com coeficiente de mangue

  1. Tive o privilégio de está presente em seu primeiro Carnaval, naquela ocasião, como sua convidada, eu e minha família, pois, vc na ânsia de um descanso ainda não sabia quais eram os perigos de uma mulher com pinta de turista sozinha numa praia. Mas, pude perceber q apesar de está vivendo um momento novo, vc deu o seu melhor. E, para nós foi uma experiência incrível e sua gentileza nos deu o alento e um afago na alma, por perceber q na selva de pedra, existem pessoas generosas. Talvez, aquele momento não tenha sifo registrado p vc, mas, p minha família é sempre motivo p uma boa prosa.
    Abs e que Deus abençoe e ilumine seus caminhos! Axe, axe!!!

    Curtido por 1 pessoa

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