As lições das vacas soviéticas

Sou do tempo da União das Repúblcas Soviéticas (URSS). Fui comunista militante, repórter sindicalista e  merecedora do título de “Rosa de Luxemburgo loira da zona Sul” depois de enfrentar a PM e tomar borrachuda em uma greve na Caloi. Naquela época, tinha muitas crenças. Várias delas perdi pelo caminho, muitas mantenho firmes e fortes. Uma crença daqueles tempos dissemino até hoje para desespero da geração Y que cruzava comigo pelos corredores e reuniões corporativas. Trata-se da lenda da vaca soviética.

Segundo amigos e inimigos do antigo regime, as coisas começaram a dar errado, entre outros motivos, porque as vacas soviéticas não mais pertenciam aos camponeses e sim ao Estado comunista. Como não eram deles, tanto lhes fazia se morressem ou padecessem no frio do inverno russo. Os camponeses tinham crachá do Estado e as vacas número de série. Se pifassem, problema do burocrata responsável pelo sistema operacional. Pense comigo: que camponês sensato iria sair no frio da noite invernal para resgatar um bezerro perdido? Quem perderia uma noite de sono esperando uma vaca prenha dar a luz? Seres humanos (sim, existem muitas exceções) tendem a cuidar com carinho do que é seu. Ponto. Basta. Nas corporações, então, isso é um clássico. Os tontos carregam o piano e tiram os bichos do pasto. Os espertos fingem que estão trabalhando muito, perdendo o sono para cuidar de tudo. Nessas, os projetos ficam pelo meio do caminho e morrem a mingua porque, às vezes, dá preguiça de tirá-los do frio.

Eu usava o exemplo das vacas soviéticas exatamente para mobilizar meus jovens colegas ypsilone. Começa com a história da URSS, que eles não conheciam. E dizia: “Vamos deixar morrer nossas vacas no frio só porque não são nossas?” “Vamos esperar o outro fazer o trabalho de conta cinzenta, de bola dividida?” De jeito, nenhum! Bora vestir um agasalho Oskelen e correr para o frio. Pode ser muito divertido. Certamente, fará a diferença. E era. E fazia. Um dos projetos mais bacanas que já fiz começou com uma boiada de vacas soviéticas. Nenhum dos meus pares queria conhecer e mergulhar nas profundezas do maior Carnaval do mundo. Na época, juntei meu time — que era olímpico — e falei: “Esse projeto sem dono é nosso a partir de agora. Tudo o que der errado será culpa nossa. Tudo o que der certo será mérito de todos. Mas se seguirmos em frente, no futuro, vamos merecer os créditos. Vamos nessa?” Todos, fomos. Quisemos, pulamos de cabeça, afundamos, submergimos e hoje, graças a essa boiada, temos uma experiência ímpar e uma amizade para toda a vida. Além claro, de um conhecimento profundo sobre a estratégia do coeficiente de mangue, sobre o qual escrevo amanhã.

Juntei meu time — que era olímpico — e falei: “Esse projeto sem dono é nosso a partir de agora. Tudo o que der errado será culpa nossa. Tudo o que der certo será mérito de todos.

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4 comentários sobre “As lições das vacas soviéticas

  1. Quando for pertinente, conta aquela história dos índios que ajudavam a levantar os postes. Aquela, que cada vez que o poste não subia tiravam um índio… Infalível —
    triste, mas infalível (rs)!

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