Como montar uma pousada

Quem morou em São Paulo no início dos anos 2000 com certeza lembra de um gigantesco out door na avenida Rebouças: “Como montar uma pousada”. Tratava-se de um curso ministrado por um visionário que atiçou a fantasia de centenas de milhares de paulistanos presos no trânsito. Não foi o meu caso. Antes, muito antes de Roberto Miranda ter a genial ideia de ganhar dinheiro vendendo o sonho da sombra e água fresca rentável, eu estudava essa hipótese como um estilo de vida. Minha inspiração era o jornalismo de viagem, atividade que exerci na Veja, na Terra e na CARAS. Sempre gostei do desafio de ir na frente para contar como é, avaliar se é bom ou ruim e, principalmente, dar dicas do que é melhor.

O passo dois dessa atividade é o que faço hoje. Se hospedar pelo mundo, descobrir o que é bom, voltar para casa e oferecer esse serviço na minha casa, a nossa casa. Sim, a função primordial de um dono de pousada (eu sou) não é viver a dolce vita al mare mas SERVIR. Grifo a palavra em caixa alta porque esse é o grande negócio e o grande prazer. Ser servido, bem servido, é o que faz alguém ficar feliz ou não em um hotel, restaurante ou pousada.

Desde muito jovem eu queria terminar meus dias à beira mar. Sou louca pelo sol. Sou louca pelo mar. Mas morava em São Paulo e tudo me parecia remoto. Inclusive o meu trabalho, focado em resultado, números e mercado.

Mas a vida é cheia de esquinas e quinas. Em uma terça-feira de Carnaval, esgotada, sentei no degrau de um camarote e contei sobre o meu plano. A minha interlocutora compartilhava do mesmo desejo e em 2012, contrariando todas as expectativas, nosso sonho se materializou em 8 apartamentos.

Como isso aconteceu? Acho que tivemos foco. Fomos prudentes. Fomos ousadas. Tivemos bom gosto Tivemos ótimos arquitetos. Excelentes funcionários e parceiros. Acho que, principalmente, nos dedicamos a aprender a servir.

A pousada nasceu após dois anos de obra. Cuidamos de tudo. Sabemos quanto custou cada prego e parafuso usado na construção. Não pedimos um real emprestado. Usamos o cartão de crédito para parcelar contas e acumular milhas — afinal, eu vivo naquilo que Garcia Marques definiu como o “sobe desce do caralho” em Amor nos Tempos de Cólera. Aproveitamos cada momento e nunca fechamos a porta da nossa casa para os amigos. Teve muita farra e festa antes da inauguração. Acredito, de verdade, que isso ajudou para o negócio dar certo. O clima de alegria impregnou as paredes e se perpetua dia após dia com os hóspedes que chegam. Alguns gostam tanto que voltam, uma, duas, três, muitas vezes.

Gostamos disso. Fizemos com honestidade e verdade. Aconteceu. E esse eterno retorno de clientes — além dos dividendos — é o maior prazer do dono de pousada. Hoje pesquisando alguns dados na internet achei graça na matéria publicada em um site de uma publicação semanal de informação que dizia: “Abrir uma pousada? É uma fria”. Talvez seja. Trabalho para caramba aos finais  de semana, mas sou feliz “pra porra”, como se diz na Bahia. Vou e volto. Levo e trago. Limpo mesa, carrego prato, trago pedido, entretenho as crianças para os pais poderem almoçar em paz. Mas tem uma hora em que paro tudo e dou um mergulho no mar. Mas isso é só uma parte do prazer. O melhor momento é quando eu conheço pessoas interessantes. E são muitas. Trocamos ideias, informações, pontos de vista. Sempre com respeito e moderação. São clientes. Sou fornecedora. Mas é uma delícia. Confesso: aprendi a respeitar e a pensar sempre no cliente com um mestre. Nunca mais esqueci como se faz.

Levo e trago. Limpo mesa, carrego prato, trago pedido, entretenho as crianças para os pais poderem almoçar em paz. Mas tem uma hora em que paro tudo e dou um mergulho no mar. Mas isso é só uma parte do prazer. O melhor momento é quando eu conheço pessoas interessantes. E são muitas.

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4 comentários sobre “Como montar uma pousada

  1. Oi Cláudia! A pousada é mesmo maravilhosa, é diferenciada! E, afinal, tudo que queremos é nos sentirmos diferenciados! Tive bons momentos lá e espero voltar em breve e, dessa vez, conhecê-la. Quanto ao blog estou adorando tb, acho que está sua nova condição te tirou de uma zona de conforto e, ao final, tenho certeza que será muito produtivo! Boa sorte e sucesso!

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