Poupa-tempo da praça da Sé: Las Vegas é aqui

Poupa-tempo da praça da Sé: Las Vegas é aqui.

Para cumprir sua Odisséia, o sujeito sem crachá enfrenta desafios. Nada tão assustador quanto o Cíclope Polifemo nem tão perigosamente sedutor quanto Calypso, é verdade, mas definitivamente não é uma experiência boa encarar o Poupa-tempo da praça da Sé para pedir o seguro desemprego. O lugar é feio, triste e soturno. O sistema vive fora do ar e exige muita paciência. A lógica é a do silogismo. Quem não tem emprego não tem nada para fazer. Quem não tem nada para fazer, pode esperar. Desempregado não tem nada para fazer, logo, pode e merece esperar até 17 anos para voltar para casa. Ok, exagerei.

Enquanto esperava, vi um desfile de humanidade digno do neo-realismo. Zero de glamour e fetiche. 100% de dureza e realidade. Doentes pedindo auxílio doença, idosos pedindo aposentadoria, despedidos pedindo um auxílio para segurar a onda até o dinheiro voltar a pingar.

Poucas vezes me senti tão privilegiada, tão Vip, tão celebridade de ilha e Castelo de CARAS. Tinha dinheiro, saúde e muitos planos. Quase pensei em desistir, só não o fiz porque lembrei o quanto já paguei de tributos e impostos para o governo. Enquanto o sistema da Dilma não voltava (o atendente que vota na Marina dizia que o sistema era melhor antes de ser federal), decidi percorrer os vários níveis do purgatório. Linha verde, azul, amarela, vermelha.

Foi andando pelos corredores coloridos da burocracia que lembrei de Las Vegas, onde estive no mês passado. E Las Vegas era ali. Na Sé como em Vegas, os que chegam vem cheios de esperança. Querem ganhar na roleta. Querem ganhar dinheiro (justo e merecido) do governo.  O clima é de ansiedade plena. Será que vai dar preto 24? Será que o sistema vai voltar? Será que o técnico aprovará o atestado médico? Eu mesma olho para o fiscal com o olhar nervoso e vidrado que vi na jogadora chinesa que passou 12 horas na mesa de pôquer (juro, é verdade).

Duas horas depois, não quebrei a banca, nem mereci atenção. O sistema seguia fora do ar. Decidi partir e tentar a sorte, outra vez, na próxima semana.

Quando contei para um amigo, fazendo clima sobre minha epopéia, ele, gênio, sugeriu: “Vai na Lapa é muito mais legal.” Imediatamente pensei no Cassino Royale, a Passárgada dos jogadores. E sábio, avisou: “Antes de sair de casa liga para saber se o sistema está funcionando.”. Simples assim. Envergonhada, agradeci e jurei nunca mais fazer drama nem desfiar lamúrias.

Poucas vezes me senti tão privilegiada, tão Vip, tão celebridade de ilha e Castelo de CARAS. Tinha dinheiro, saúde e muitos planos.

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4 comentários sobre “Poupa-tempo da praça da Sé: Las Vegas é aqui

  1. Uau! Eu sou de Campinas e passei por isso recentemente, mas, ao contrário do Poupa Tempo da Sé, o que fica aqui, no Shopping Campinas, além de ser bem localizado, tem pessoas educadas e ágeis. É quase louco por não ser comum em nosso país
    , mas posso dizer que fui bem atendida! 🙂

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