Com que roupa eu vou?

Um dos meus maiores tormentos durante minha temporada de diretora superintendente foi o dress code. Nunca usei salto alto porque meu 1m76 já estava de bom tamanho. Maquiagem sempre era sinônimo de batom rosinha, bem clarinho. Unhas fiz três vezes em 48 anos — e a primeira vez foi em 2014 para ser madrinha de casamento da Mari e do Bel, nada a ver com trabalho. Bolsa sempre usei uma, até acabar. Quanto à roupa, sempre fui pão dura demais para gastar com grifes e coleções. Me vestia de modo básico, limpo e decente. Mas tive um chefe que não gostava do meu jeito “despojado”. Queria uma executiva vestida como executiva para representar a empresa.

Não teve coragem de dizer isso na minha cara, mandou recado. Um dia a diretora de RH, querida amiga, me chama para almoçar. Eu, tonta, achei que era só para colocar a conversa em dia. Na hora da sobremesa, ela, muito sem graça, diz: “preciso falar de um assunto de trabalho e muito pessoal”. Pensei: “Será que descobriram que eu ronco à noite ?”

— Sabe, nosso chefe pediu para eu falar com você. Ele acha que você se veste mal, que precisa se arrumar mais. Usar roupa de executiva.

Tive um choque anafilático. Eu que me achava tão certinha, bonitinha, arrumadinha, estava na boca do sapo? O chefe me achava mal vestida, feia, cafona?

Não me contive e, de joelhos, pedi o golpe de misericórdia ao perguntar: “você concorda com ele?” Ela, ainda sem graça, negou. Não, você é linda! Verdade ou mentira, o fato é: entrei em crise. Liguei para minha mãe e implorei ajuda, consultoria, assessoria de estilo. Fomos à ponta de estoque da Gloria Coelho, comprei vestidos, calças, camisas, sapato com detalhe prateado, sandália de salto. Tinha um novo guarda-roupa mas seguia em crise. Não entendia o pedido. Me sentia humilhada, abusada. Havia sofrido um assédio moral estético. Ele, o chefe, não gostava do meu gosto.

A partir desse momento, acordar de manhã e escolher a roupa para trabalhar virou um tormento. Provava um, duas, três. Nada ficava bom. Era tanto sofrimento que levei o tema até para a terapia. Ridículo, mas aconteceu. Sarei quando adotei o preto e uma sandália de salto mais alto nas reuniões com ele. Ficava bem uns 5 centímetros mais alta que ele.Minha vingança.

Estou contando tudo isso porque esse foi o curta-metragem que passou em minha cabeça no meu primeiro dia sem crachá. Com que roupa eu iria à padaria? Ao shopping? Ao clube? Ao banco? Podia passar o dia de shorts e camiseta? E no almoço no Paris 6 com o amigo querido? E na primeira visita à empresa de recolocação? E na entrevista com o head hunter?

Perguntas idiotas, respostas óbvias. Com a roupa mais adequada. Na padaria, fui de agasalho esportivo, o meu pijama. No shopping, de jeans. No clube, de roupa para jogar tênis. No banco? Quem vai ao banco? E para ir ao Paris 6, escolhi uma calça branca com uma camisa azul que trouxe dos EUA para combinar com minha bike. Ficou bem e repeti o look ontem para ir à DBM. Enfim, simples assim.

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29 comentários sobre “Com que roupa eu vou?

  1. Clau, super me identifiquei. Agora como fotógrafa tenho a liberdade de me vestir do jeito que realmente gosto. Combina com minha atual profissão. Os saltos ficaram um pouco aposentados e o guarda-roupa cheio de camisas sociais que não uso mais. Mas é isso… se não mudar de manequim, meu closet tb pode durar para sempre! Estou adorando os posts. Parabéns!

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  2. Acho que temos que ir com a roupa que nos faz sentir bem. Também acho uma tremenda falta de bom senso querer impor uma “capa” que não combina com nosso jeito de ser. Tem gente que passa a vida olhando pra fora e esquece de enxergar o que tem dentro. Bjs

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  3. Me culpo muito com a questão das roupas também. Não só por achar que eu deveria ter uma vestimenta mais formal no trabalho, mas também mas adequada à minha idade. Não que eu use roupa apertada, curta ou misture bolas com listras. Sou básico. Mas um básico despojado. Talvez despojado demais… Sei lá! Já passei uma temporada vestido de “redator-chefe”, mas não combinou comigo. Perdi identidade. Pelo menos com meu visual informal o trabalho renda mais. Será? Prefiro acreditar que sim.

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  4. Que texto gostoso de ler!
    Estou adorando!
    Gostei do tema.
    Sempre gostei de me vestir de executiva, mas por prazer mesmo mas sempre respeitei quem não se identificava com esse look.
    O importante pra mim é ter um estilo e ser feliz com ele!

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  5. Claudia
    Adorei o seu comentário… com o meio jeito totalmente básico confesso que as vezes me sinto fora de sintonia quando estou próxima a uma mulher toda trabalhada na maquiagem..luzes nos cabelos… unhas com desenhos… cheias de bijou .. cremes e perfumes.. enfim…mas sigo feliz com o objetivo de simplificar a minha vida. Bjs

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  6. Na nossa antiga “firma” existiam algumas tribos, em algumas era permitido ir de havaianas e boina, saias curtíssimas com perna toda tatuada, outra já tinha um jeito roots, despojado, um tanto “sujinho”, um tonemaí, ah, a turma dos terninhos com camisa e scarpin e a dos fashionistas (entre outros). Estar mal vestido ou com dress code errado passava pelo grupo a que pertencia. Não sei se me encaixava em algum desses, eu sempre usei o que eu conseguia encontrar do meu tamanho (acho que isso cria um grupo). Havia um cara que usava calça saintropeito, (brincávamos), e que mais tarde virou crítico de moda, alguma lembrança?
    Direto da minha própria vida sem crachá. Parabéns pela iniciativa terapeutica. Bjs.

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  7. Engraçado pensar que não são só vocês, mulheres, que passam por isso. Eu também me senti estranho nos dias subsequentes à minha demissão. Mesmo que eu ficasse em casa, estava com o ‘uniforme’ mais casual do dia a dia. Não ficava de camisa, mas não abandonava a polo e a calça jeans, no máximo um tênis. Levei quase um mês para colocar uma bermuda, mesmo quando ia ajudar nas tarefas domésticas, sei lá, me sentia um inútil, na real, me sentia um vagabundo desempregado… Hoje consigo lidar melhor com isso, mas mesmo assim, ainda dói quando olho para o guarda roupas e vejo que não há motivos para me arrumar só para ficar em casa procurando trabalho…
    Claudia, ouvi sua entrevista na Trip FM e realmente, você falou tudo o que eu senti no dia da minha demissão, até a questão da premonição foi parecida.
    Ainda estou sem chão, hoje é o 50º dia sem trabalho, tenho procurado, tenho enviado currículos, aliás, foram 300 neste tempo todo e até agora não apareceu uma oportunidade. Isso que machuca, mas sei que uma hora isso tudo vai passar. Não tenho como empreender, ou mudar radicalmente, mas acredito que uma hora as coisas se encaixarão.
    Parabéns pela sua volta por cima, realmente, ler seus posts, ouvir suas entrevistas e agora, ler seu livro, foi, e está sendo muito inspirador.

    Um grande abraço.

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    1. Ricardo, obrigada por sua mensagem. Sim, é muito duro. Respire fundo. Faz muito pouco tempo que aconteceu com você. Infelizmente, as coisas estão difíceis. Muito difíceis. Aproveito o tempo para ler, estudar, se aperfeiçoar. É um bom jeito de melhorar de ânimo e humor. Te desejo sorte e sucesso. E força. um grande abraço

      claudia

      Curtido por 1 pessoa

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