A primeira vez na portaria de um prédio de escritórios

Para quem não me conhece, algumas apresentações. Sou Claudia Giudice, paulistana, 48 anos, mãe do Chico, jornalista. Assinei minha carteira de trabalho pela primeira vez aos 16 anos. Pulei de um emprego para o outro desde então. Se não era contratada, era frila fixo (sim, eu sei, é proibido). Sempre tive chefe. Sempre tive crachá. Tinha. Faz um mês que não tenho. Perdi a virgindade corporativa. Fui demitida.

A proposta desse blog é falar sobre a vida sem crachá. Prometo que não será um muro de lamentações. Prometo não destilar ódios nem amarguras, porque não os tenho. A minha intenção é fazer uma crônica sobre as descobertas dessa minha nova vida e compartilhar com amigos (e, porque não, inimigos) as minhas experiências. Tentarei ser leve e divertida. Tentarei ajudar, de alguma forma, aqueles que estão passando por isso agora ou que passarão um dia. Não serve de consolo, eu sei, mas acontece com quase todo mundo. Sempre soube disso e me preparei para isso. Mas esse é assunto para outro post. De amanhã talvez.

Prometi no título falar da “primeira vez na portaria de um prédio de escritórios” sem crachá. É sinistro. A moça te olha e pergunta: “vai aonde?” Respondo sorrindo: “sexto andar, falar com a Heloisa”. “De onde você é?”, ela retruca.
Silêncio. Confusão mental. Branco. O que respondo agora? Sou da Terra, do Jardim Paulistano, da rua Artur Ramos, do Clube Pinheiros. Não, não era isso que ela quer saber. A pergunta é objetiva: ela quer saber o nome da minha firma! Quase respondi Pousada A Capela, meu plano B e meu paraíso particular… mas resisti. Não ficava bem, afinal estava lá para conseguir um trabalho e não para vender diárias. Recuperada da descoberta de que já não podia mais dizer “Claudia Giudice da Editora….”, disparei: Sou jornalista. Claudia Giudice, jornalista.

A moça teve ter pensado na Marilia Gabriela, na Fatima Bernardes, na Renata Vasconcelos e aceitou minha resposta. Pediu o RG. Fez um retrato com camerazinha digital e ligou para a secretária do andar. Fulana está aqui a Claudia Giudice, jornalista, para falar com a dra Heloisa. Bingo. Sobrevivi. Por mais este motivo, valeu muito a pena ter cumprido os quatro anos de curso na PUC/SP.

Recuperada da descoberta de que já não podia mais dizer “Claudia Giudice da Editora….”, disparei: Sou jornalista. Claudia Giudice, jornalista.2584

 

 

 

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40 comentários sobre “A primeira vez na portaria de um prédio de escritórios

  1. Tenho um amigo que o sonho dele é ter um crachá. Já trabalhou em vários lugares e nenhum deles tinha crachá. É uma frustração imensa, coitado. Sou tão apegado aos meus que não consigo devolver nem mesmo depois que saio do trabalho. Guardo de recordação. A vida sem crachá me aflige. Sou careta demais para a independência completa. Mas você é criativa. Vai descolar as melhores experiências dessa vida (acredito que bem curta) sem crachá!
    Beijos com sabor fluminense/carioca!

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  2. “Eu disse: nada de crachá, meu chapa. Sou um extra-achado.” Cacau, em nosso planeta todo mundo se respeita, mas respeitamos, ainda mais, os que têm coragem de desvelar desvãos da alma. Vale ressaltar que você era o único e competente contato entre a ‘Exditora’ e o Nordeste, ou seja, um puta mercado.

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  3. Uma vida atrás, quando a Abril ainda era no Panamby e eu ainda era jornalista, fui entregar um texto free lancer, mas não levei meu RG. Disseram que eu não podia subir e o editor teve que descer pra pegar o texto (sim, naquele tempo era um print). Dias depois, o prédio foi roubado. Em vez do RG, os moços mostraram uma arma. Por algum motivo sempre lembro disso e sempre lembro do Bozó, personagem do Chico Anísio, que amava o crachá da Globo. Minha convivência contigo foi brevíssima e distante; mesmo assim penso que você está além dos crachás.

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  4. Guardo meu crachá de souvenir, em uma caixa com coisas que também ficaram na história – na minha história. Acho que vinha me vacinando contra uma possível “síndrome de abstinência” há tempos. Na verdade os planos pós crachá são mais difíceis do que se livrar dele.

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  5. Bom dia Claudia.
    Acabei de ler o seu texto no meu facebook.
    Achei lindo a forma que você relatou todos os acontecimentos que envolveram a sua demissão e a sua decolagem para a felicidade.
    Gostei muito e a partir de hoje você tem mais um admirador da pessoa, da profissional e do ser humano que você é !
    Bom Dia !!!!

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  6. Claudia,
    Li seu post sobre a dolorosa experiencia de ter seu crachá “arrancado”, juro, chorei em imaginar a sua dor naquele momento…
    Há 4 anos não sou mais funcionária e sim empresária (tenho uma agencia de eventos), mas não consigo e acho que nunca conseguirei aceitar a frieza com que algumas corporações tratam seus colaboradores nesse momento, como é possivel de uma hora para outra, com uma simples frase dispensar quem fez parte da construção, responsavel direta/indiretamente do sucesso do negócio assim?
    Enfim, creio e sempre digo que as mudanças são pra melhor, mesmo que não possamos entender a razão no momento…
    Quero muito saber do lançamento do seu livro… estarei lá com certeza!
    Um grande beijo e muito sucesso sempre!!!
    Alê

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  7. Claudia, me identifiquei muito com seus textos. Sai de uma multinacional em Março passado após quase 9 anos de um total de 28 anos de trabalhados em outras empresa. Concordo que quando nos tiram o crachá, nos tiram a pele e nos perguntamos, – E agora? Mas seus textos foram muitos esclarecedores e confirmam o que venho pensando nesses 2 últimos meses. Há vida fora da empresa. Hoje, estou tocando o escritório de arquitetura com a minha esposa. Desde 2012 ela tocava sozinha fazendo projetos para clientes PJ. Agora, com a minha bagarem desses 28 anos de empresas, vamos expandir o escritório de arquitetura, onde vou atuar fortemente na administração da empresa e ela aos projetos. O nosso objetivo como empresa é proporcionar o bem estar das pessoas e também empregar arquitetos que desejam uma carreira promissora.
    Parabéns pelo seus blog. Simplesmente, fantástico!
    Eduardo Reina

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  8. Claudia,

    Passei pelo mesmo processo transformatório, se é que isso existe !

    Também arrancaram minha pele junto com o crachá e, além da tristeza de ver todo o meu empenho e cuidado pelo negócio do alheio que cuidava a tanto tempo, foi bem difícil me acostumar “sem o piloto automático” que me levava, diariamente, aos locais que precisava estar, pelo tempo necessário …

    Também tive que descobrir o que dizer nas recepções das grandes empresas … e tive que entender que bermuda também é roupa, que preguiça não é pecado e tive que bater muita boca comigo mesmo, quando uma parte de mim queria levantar, costumeiramente, as 5:30, para ir para lugar nenhum, afinal não estavam mais me esperando para nenhuma reunião inútil, ou para mais um dia de “remadas contra as marés”, idealizadas por outros alguéns como eu, desesperados ou não por cumprir uma meta impossível de ser atingida …

    Talvez, contudo, menos preparado que vocêm afinal você tinha um plano A rapidamente implementável e eu ainda estou, depois de 15 longos anos, tentando estabelecer o meu plano A “sustentável”, mas consegui me desintoxicar de todo aquele lixo que estava, na verdade, me arrastando para uma condição inevitável: a mediocridade !

    Descobri, com a remoção da minha pele-crachá, que existe vida após o crachá, que alias, deixo aqui não uma sugestão para que você transcorra a respeito, mas sim um pedido – gostaria de saber sua opinião sobre a “vida após o crachá” !

    Parabens pelo blog – vou começar a segui-lo desde já e tentar aprender mais contigo !

    E gostaria de deixar aqui registrada minha alegria em poder ver que existem mais seres inteligentes que descobriram que, no final de tudo, o que vale mesmo a pena é nunca colocar o crachá acima da pele …

    Sergio Renzo
    Só mais um feliz não-autorizado !

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    1. Renzo, bom dia. desculpe-me pela demora na resposta. Foram muitas mensagens no período do feriado e para piorar fiquei sem internet. obrigada por sua mensagem. no livro escrevo muito sobre a vida pós-crachá. A cada dia descubro uma novidade e sei que ainda tenho muito o que aprender, especialmente a não sair da cama às 5h30 ou prosseguir no jogo de tênis com as minhas amigas. você me deu duas boas ideias. muito obrigada e será um prazer tê-lo como interlocutor. abraço

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  9. Olá Claudia, parei aqui em busca de notícias do seu livro, que me falaram foi lançado. Mas você já descobriu que vida sem crachá não existe?? Dá uma olhada ali, você tem um: deve estar escrito: Claudia Giudice – Jornalista. Empresa: Claudia Giudice e Pousada A Capela. É bem capaz que a sua nova chefe, a Claudia Giudice, seja a mais rigorosa que você jamais teve!!! rsrsr. beijos!!

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    1. Mauro, meu querido amigo, que saudade. Você tem razão. A Claudia Giudice sem crachá está “f” com a nova chefe que ela tem…risos. Na verdade estou muito feliz. Tudo andando de um jeito que jamais imaginei. Nossa. Deus está sendo pai. Então, o livro será lançado em agosto. Até o dia 10 mando os originais revisados para a editora. E até lá vamos vender diárias, palestras, responder mensagens carinhosas e tomar banho de mar. Porque é muito bom. beijo enorme

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  10. Cláudia,
    A primeira vez que deixei um crachá para traz, foi na mudança do Jornal O Estado de São Paulo. Troquei Estadão pela Abril.
    No RH do Estadão, deixaram que eu levasse o crachá.
    Esta em minha carteira até hoje. Os outros?
    Nunca mais, sai com crachá pendurado pra almoçar, Eu sou a Norma Gabá meu crachá é a minha identidade.
    Sem dor e problema. Tenho os crachás de eventos, feiras, seminários e locais onde estive a trabalho ou para meu crescimento profissional/pessoal. Não sou jornalista, sou publicitária.
    Hoje sou feliz, sem crachá e tenho uma pequena empresa de Marketing Editorial, voltada para a industria farmacêutica.
    A liberdade do crachá é linda. Há vida com nossos proprios objetivos e valores. As regras passam a ser mais duras. Vale a pena!!! Fui feliz com crachá, hoje sou muito mais feliz dizendo que sou da NSG – Marketing Editorial.
    Quero conhecer a pousada!!!
    bjs e abraços carinhosos

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  11. Claudia voce é e será inspiração para muitas pessoas com ou sem crachá…Estou adorando ler seus textos e agora então que sou sua seguidora…e recebendo por e-mail ….tudo de bom….Voce é demais!!!!

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  12. Claudia, que bom descobrir seu blog! agora vou atrás do livro…há 3 dias também perdi a tal virgindade…rs. Depois de 15 anos em um banco, sou demitida. 22 anos trabalhando sem parar (em outros 2 empregos antes, mas sempre ininterruptamente). Percebi o quanto estava imersa naquele tema corporativo, que nos engole de todas as formas. Estou tentando me apropriar da minha liberdade e dos vários planos para o período sabático que me darei de presente. Um dia de cada vez. Mas uma coisa estou certo: assim como você, poderei me apresentar para o porteiro de um escritório qualquer: sou Juliana, advogada. Perdi o crachá, mas não a profissão. beijos queridos! Obrigada por dividir sua experiência.

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    1. Juliana, boa noite. Muito prazer. Espero te fazer companhia nesta nova fase. É um processo longo e muito interessante. Aprende-se muito. E isso é maravilhoso. O livro será lançado no dia 25 de agosto na livraria Cultura de SP. Se puder vir, será um prazer conhece-la. beijos

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