Obrigada

Hoje é um dia Para agradecer.
Obrigada, Senhor.

Por que agradeço? Porque hoje deu tudo errado no limite de chegar em casa sã e salva.
Estranho? Parece. Não é. Explico.
Quando o dia começa dando tudo errado é exasperador. São sequências mínimas de pequenos episódios que somados vão te deixando louco. É a goteira, que de tanto pingar inunda a sala. Provoca infiltração e curto circuito.
O dia começou a dar errado ontem quando uma pessoa muito querida revelou estar doente. Está aprisionada no quarto escuro de seu inconsciente. Imóvel. Insone. Refém de pesadelos. Terror.

A agonia alheia me atordoou também. Fugi do diálogo. Embarquei para longe. No caminho, muita carga. Na prática, uma tarifa cara pra Uber nenhum reclamar da vida. No guichê da Latam, excesso de peso. No caixa da companhia, preço abusivo. Na fila do quilo, uma atendente chata querendo que eu mude meu lugar na fila. No prato, comida estragada. No embarque, escolha aleatória que me leva à fila para Guantanamo. Sou revistada como se estivesse embarcando para Ebrom. Assédio sexual. “Estamos zelando pela sua segurança”, justifica o guardinha de cabelo esticadinho.

Respiro fundo. Podia ser pior. Podia ser da lavandeira. Poderia ser do lava a jato. Poderiam ser as lavadeiras da Lagoa do Abaeté. Embarco. O senhor grisalho não deixa eu abrir o bagageiro. Começa a gritar que vou estragar a bolsa da mulher dele. Ela é bonitona. Certo ele de defender seu patrimônio. Calo para não enforcá-lo. Durmo para passar o mau humor.

O avião não caiu. Aterrissou sem susto e chego a conclusão que tenho sorte. Que preciso agradecer. Obrigada, senhor.

 

Amor

16 de setembro de 2002.

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Eu me lembro de olhar para a parede e ver o relógio digital derrubando as plaquinhas com os números. 16h00. 16h02. 16h05. A essa altura, todos na sala repetiam, força, força, força. Mais uma vez, força, força.

Eu me lembro de suar. De sentir uma estranha ansiedade. Acho que era medo. Lembro de fazer uma força danada para expulsar, para colocar para fora, para tirar de dentro de mim, você.

Eu me lembro que consegui. Não lembro a hora exata. Parei de olhar para o relógio. Quando o vi novamente já era 16h16. Colocaram você todo sujo no meu peito. Quis chorar mas não consegui. Achava que tinha que estar emocionada. Não estava. Estava cansada e assustada. Você também tinha os olhos cansados e arregalados. Que luz forte. Que lugar frio. Quanta gente estranha!

Hoje, 14 anos depois, lembro do nosso primeiro encontro e fico feliz em acreditar que não foi naquele momento estranho que você nasceu. Foi antes. Bem antes.

Você nasceu para mim no dia que senti um amor profundo, que entendi que precisava se reproduzir na forma de alguém que poderia ser ou não minha, nossa, imagem e semelhança. Eu me lembro que escrevi um poema chamado Théo. Era o nome que queria que você tivesse. Dizia assim:

théo nasceu antes de ser concebido

théo gestou-se no verbo

théo encarnou na palavra e ganhou forma

transformou-se em metáfora

metalinguagem

metonímia

théo pode até parecer pleonasmo vicioso

diante do ventre ainda vazio

do seio seco

do coração pleno

théo ainda virá a luz, ele feito de magia, e lerá

estas linhas, contente e assustado, com o poder

de uma profecia, de um verbo intransitivo.

de um ato falho mais que perfeito

théo, meu filho, seja bem vindo!

théo, meu querido, seja feliz.

théo, meu companheiro, seja breve

nesta sua viagem de mil anos luz.

Théo virou nome da moda e seu pai preferiu mudar. Francisco. Vai chamar-se Francisco, ele disse no instante em que revelei a sua chegada. Francisco porque é nome de santo. Francisco porque foi para ele, o Santo, que pedi, rezei, fiz promessa, peregrinação para que você chegasse logo. Ainda não paguei minha promessa. Temos que ir lá, mas essa é outra história.

Quatorze anos depois, escrevo para falar de amor. O amor que nasceu com o desejo da sua vinda e que cresceu, segundo a segundo, após o nosso encontro.

Não, não foi um amor instantâneo. Quando expeli você de dentro de mim, éramos estranhos. Quando nos vimos pela primeira vez, nos desconhecíamos. O amor incondicional era uma ficção, uma imagem poética. Eu não o sentia ainda. Eu amava teoricamente aquilo que desejava que você fosse. Mas ainda não amava você. Não tínhamos intimidade. Eu não entendia o que você queria. E você me olhava com olhos de espanto. Que espaço era aquele? Que gente era aquela? Por que tinham te tirado daquele lugar quente, escuro e gostoso? Quem fizera tão perversa maldade? Eu filho, fui eu. Te expulsei de dentro de mim para te dar a vida. Meu maior legado. Minha obra.

Nesta semana, quando voltei de viagem para estar contigo em seu aniversário, sua avó me disse que você achava que eu não desejava que você voltasse para minha barriga. Você tem razão, filho. Não tenho essa fantasia de te guardar para mim. Não é falta de amor. Talvez seja excesso. Com certeza, é amor.

Te ver crescer é o que mais me empolga, me entusiasma, me motiva e me inspira. Te ouvir falar, questionar e discutir me encanta. Vejo um homem crescendo com princípios, convicções, qualidades e defeitos. Vejo um rapaz surgindo no corpo do menino. O tênis 42 em nada lembra o pezinho 18 dos primeiros dias. Sua voz, que engrossa a cada dia, dá o tom da mudança. Você está crescendo, Chico.

Viajo no tempo do mundo quando ouço você tocar no seu violão as músicas que eu mais amo. Você cresceu, Chico. Na Roda Viva, no Canto de Ossanha, traidor, na Rosa dos Ventos,  no Retrato em Branco e Preto… E ontem, quando você cantou Canção da América para mim, tive certeza que o amor é tudo o que eu tenho para te dar e a única coisa que espero receber.

Ame muito, Chico.

Seja feliz. Se livre. Seja o que vier. O que importa é ouvir a voz que vem do coração.

Te amo, Chico.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tem muro alto, tem cerca mas chamar de prisão dói, dói muito

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Na minha fase terapia em praça pública, usei esse espaço várias vezes para discutir a opinião alheia, a crítica, o elogio, a minha mania de perfeição, a minha auto-estima oscilante e a dificuldade que é ouvir, lidar e aceitar o outro. Depois de uma sexta e um sábados carga pesada, acordei com uma mensagem de avaliação do TripAdvisor (o programa de divulgação e avaliação de hotéis, restaurantes e bares, que se tornou o guia oficial da opinião popular sobre o segmento no planeta Terra) piscando no meu telefone. Para quem ainda não sabe, sou dona de Pousada. Sou a feliz e ciosa proprietária da Pousada A Capela. Corri ler, claro. Estava em inglês. Tinha só uma bolinha. Uma ferroada invisível, mas verdadeira, estocou meu estômago que, ato contínuo, começou a dor. O gosto amargo tomou minha boca, como se tivesse pecado com um vinho já avinagrado. Insegura, cliquei duas vezes para abrir a avaliação.

A autora do post é a Dianna. Uma senhora estrangeira, que esteve no apartamento 11 no final de semana passado. Não veio porque escolheu. Veio porque foi convidada por um adorável casal que celebrou a sua união em nosso espaço. Ela bateu feio na gente. Não gostou da comida. Reclamou do horário do café da manhã. Reclamou que não tinha café, o que era mentira. Reclamou que o wifi era uma bomba, justo no final de semana que o danado funcionou direitinho. Reclamou que os funcionários recomendaram que ela não caminhasse sozinha, com câmera fotográfica, no final do dia. Tudo certo. É a opinião dela. Gosto não se discute. Até se justifica ou se lamenta, mas discutir não. Gosto é direito adquirido.

O que doeu, no entanto, foi ela ter chamado a minha a nossa Capela de prisão. Ela escreveu que sentiu-se presa porque temos muros altos e cercas elétricas ao redor de toda a propriedade. Sim, é verdade. A mais pura verdade. Somos um lugar seguro. Temos proteção. É bom. É ruim.

Claro que eu preferia morar em um lugar sem muros, nem portas, nem portões. Claro que eu preferia me sentir segura sempre. Claro que eu desejaria que não existissem roubos, assaltos, sequestros, latrocínios e assassinatos na minha vila, na minha cidade, no meu estado e no meu país. A Dianna, que mora, acho, nos Estados Unidos, é pesquisadora, professora, vive em uma cidade bucólica. Deve se sentir segura sempre. Deve ser bem mais livre do que eu. Pode viver sem muro nem tranca na porta. Só teme a vitória do Donald Trump e os terroristas. Entendo. Mas, puxa vida, chamar a minha Capela de prisão é sacanagem. Pronto, falei.

 

 

A beleza (e um plano B) na ponta dos dedos

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Conheci a jornalista e publicitária paulistana Beth Klock, 62 anos, na minha antiga encarnação. Ela era uma especialista em coleções de fascículos e produtos colecionáveis. Não éramos amigas. Apenas nos conhecíamos e nos cumprimentávamos com respeito. Um dia, a área de colecionáveis da empresa acabou e ela foi mandada embora. Outro dia, eu fui mandada embora. Um belo dia, vejo um post da Beth no Facebook. Havia um desenho lindo, de flores. Dei um like. Dias depois, dei outros likes para outras coisas lindas que a Beth havia feito. Passou mais um tempo e no Dots (um grupo fechado no FB que reúne pessoas legais que trocam favores e serviços) vi outro trabalho da Beth, dessa vez com uma função decorativa. Acho que era uma bandeja.

Em vias de inaugurar uma loja de arte popular, decoração, objetos e serviços na Bahia, decidi entrar em contato com a Beth para saber se ela não poderia produzir objetos para eu vender. O encontro foi pura sincronicidade. Era o que ela estava precisando. Rápido como quem furta, Beth arrumou outros parceiros, fornecedores, prestadora de serviço e criou uma linha de produtos que inclui porta copos, bandeja, jogo americano, quebra-cabeça, descanso de talheres, quadrinhos para parede e o que mais vier. Acho que vão vender muito bem e novas encomendas virão.

A história de Beth é linda e ela escreve bem pra burro. Por isso, vou reproduzir — com a autorização dela, claro — um texto que ela publicou no site trintaeumas  (http://www.trintaeumas.com.br) . Ela e a história dela são um exemplo e tanto de plano B.

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Bom, primeiro preciso confessar uma coisa: não sou da turma dos “trinta e umas”. Sou da turma dos trinta e muitos – 30 e mais 32, para ser exata.

Tenho 62 anos (se estamos em 2016 é isso, se não, é só fazer a conta), mas ainda me sinto como se tivesse 30 e poucos. Apesar de uma dor ou outra, o corpo já não tão flexível, não tenho do que me queixar. Tanto que me foi permitido compartilhar este espaço com vocês, que são contemporâneos dos meus filhos.

Mas a verdade verdadeira é que nem mesmo com 30 e poucos eu me sinto. Porque há pouco mais de dois ou três anos, inaugurei uma vida nova.

Eu explico: desde criança alfabetizada eu escrevo. Tirava notas boas nas redações, acreditei nos meus professores e fiz disso a minha profissão. Comecei pelos textos curtos, os publicitários. Exercitei também o dom da síntese, ao passar a contar (e vender) uma ideia em parcos 30 ou 15 segundos de um comercial de TV. Depois me esparramei em textos longos, que preenchiam páginas de revistas. Sempre fui boa em cortar, em editar o texto até fazê-lo caber na medida que a tirania dos diretores de arte e diagramadores de então (hoje designers) nos impunham. (Li este texto e fui cortando várias palavrinhas das quais você não sentiu a menor falta).

Mas, num belo dia, antes de completar meus 60, perdi o meu emprego, minha mãe adoeceu, a vida deu uma bela capotada e, sem notar, comecei a pintar. Eu, que nunca tinha desenhado direito nem casinha com fumaça saindo pela chaminé. Sim, porque hoje pinto como criança, com o dedo na tela do tablet.

Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida.

Ainda estou engatinhando, longe de andar com desenvoltura. Achei que seria útil contar isso a vocês, porque um dia, se se cuidarem direitinho e tiverem uma certa dose de sorte, também chegarão aos 30 e tantos! E, quem sabe, também queiram, ou precisem, reaprender a andar.

Infelizmente não tenho receita para passar. Ou será que tenho?

Talvez algumas poucas reflexões.

A primeira é a de fazer tudo o que você tiver de fazer do melhor jeito que conseguir. Faça sempre como se fosse exclusivamente para você. Capriche, se empenhe, veja se não dá para melhorar. Não faça para o chefe ou em troca do dinheiro. Os chefes se vão, o dinheiro também, mas o que você aprender fazendo bem-feito, ah! Isso fica para você para o resto da sua vida. E ninguém te tira!

Outra coisa: experimente fazer coisas que nunca fez antes. Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento, não é mesmo? E, importantíssimo: tire um tempo para não fazer absolutamente nada. Isso! Para ficar bestando, ócio total. Parece que o cérebro precisa disso para “restartar”, eu acho.

Por último, uma coisa que acho beeeem difícil aos 30 e poucos – na verdade, é difícil desde os 12 ou 13: não tenha medo do ridículo, do erro. Não quero dizer com isso que você deva sair azarando por aí, cometendo as maiores barbaridades. Não é isso.

Falo de ousadia responsável. Sustentável (está na moda ainda?). Para falar o que pensa. Para vestir o que gosta. Para não concordar só para agradar o outro. Para experimentar de outro jeito. Para se calar quando todos parecem ter encontrado a verdade absoluta. Para se expor sem receio do juízo alheio. Para cair, engatinhar e voltar a andar.

Obrigada, Beth, por sua linda história. E pelas coisas lindas que você faz.

http://entretenimento.r7.com/hoje-em-dia/videos/internautas-unem-seus-talentos-em-rede-social-e-criam-oportunidades-de-renda-05092016

Com os cupins sobre a mesa

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Ontem assisti ao filme Aquarius. Ontem entrei em um túnel. É estreito. Parece escuro, mas a cada instante, imagens, com e sem movimento, iluminam as paredes com flash de situações que vivi. É silencioso porque é solitário, mas tem música porque músicas fazem parte da minha vida. É comprido, porque faz mais de 50 anos que caminho por aí, procurando a luz.

Ontem assisti ao filme Aquarius e fiquei muito emocionada. A interpretação da Sonia Braga, linda e digna aos 66 anos, me arrebatou e me deu esperança. Um dia chegarei lá.

A história é simples.Uma mulher sozinha, de meia idade, mora em um prédio na rua da praia de Boa Viagem, em Recife. É banalmente feliz. É normal. Por ser assim, acredita ter o direito de recusar uma oferta milionária de uma construtora que quer comprar seu apartamento para pôr tudo abaixo e construir um novo edifício. A recusa, que contraria a lógica mundial a qual o dinheiro, supostamente, compra tudo, é o fio condutor do filme. Por que ela não facilita? Por que ela não simplifica tudo? Por que ela não pega a grana e desempata a vida dos ex-vizinhos, dos filhos, do arquiteto e do construtor? Por que?

Por que ela precisa aceitar a proposta?

Por que ela não tem o direito de dizer não?

Por que ela não pode ficar na casa dela?

Enquanto me envolvia com o drama de Clara, nome da personagem, revi as inúmeras situações nas quais cedi para não criar confusão, para não empatar a vida alheia, para simplificar tudo… Fui me sentindo a antiClara. Fui me martirizando por ter sido tão cordial, tão débil, tão fraca. Fui me apaixonando pela coragem dela. Fui purgando todos os SIMS que disse, quando a vontade era ter berrado NÃO. Fui me corroendo. Revisitei os buracos da minh’ alma escavados por cupins vorazes. Túneis longos e profundos, como galerias de uma mina de diamantes fantasma.

Não quero, obrigada. Vou lembrar dos cupins sempre que titubear ao dizer essas três singelas palavras.

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Hora de relógio

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A Bahia tem sotaque, gírias e expressões idiomáticas próprias. A que eu mais gosto é “hora de relógio”. Quando alguém diz ” vamos nos encontrar às 19, hora de relógio”, ela quer dizer que o compromisso é às 19 h, sem falta nem atraso. Óbvio para um britânico, suíço, alemão. Óbvio para mim que estou sempre adiantada. Estava. Até essa semana, quando decidi brincar com o tempo. Com o trânsito paulistano. Com a bondade da atendente da companhia aérea. Com a hora de relógio do embarque do avião.
A história é patética. Meu vexame absoluto é inesquecível. Me exponho porque o aprendizado é utilíssimo e porque para o leitor será engraçado, bizarro.
Na quinta-feira, 25, depois de uma reunião na editora Harper Collins, eu tinha todo o tempo do mundo até a hora do meu avião às 17h55, no aeroporto de Congonhas em São Paulo. O compromisso do era uma palestra na sexta-feira, em Curitiba. Meus anfitriões tiveram a gentileza de comprar o bilhete para um aeroporto perto de casa, para facilitar minha vida. Não mereci.
Fiquei em casa trabalhando. Estava tudo certo até ouvir o barulho da chave na porta. Era meu filho, Chico, que buscava suas tralhas. Fiquei feliz em vê-lo. Me animei. Festejei. Me perdi. Quando dei por mim já estava na hora de partir. “Bora filho vamos. Perá, mãe. Preciso ir ao banheiro.” Mãe perou. “Te dou carona filho.” Na ponta do lápis da hora de relógio, 20 minutos se escoaram na pia da felicidade do amor materno. Vale. Vale.
Descemos para pegar o Uber. Mala grande com 50 livros. Mala pequena com equipamentos. Mochila com objetos pessoais. Chico com mala, mochila e violão. Na hora de fechar a porta do carro da Sueli, nossa Uber de Zafira, chega Thiago, meu revendedor de Nespresso, trazendo as cápsulas que pedi para levar à Bahia. Mais um volume no porta-mala.
Bora, Bora.
Tudo lindo se São Paulo não fosse a cidade susto da hora de relógio. Os cinco minutos que gastaria para a carona se multiplicaram por 3. Quando meu filho desceu, o waze avisava que eu chegaria no aeroporto as 17h30. Estava morta antes de partir.

Achei que era exagero do algoritmo e errei em não despachar com meu filho minha mala cheia de livros para vender na palestra. Fui brigando com a tecnologia, inventando caminhos que deixaram a motorista, de origem japonesa, desconcertada e de olhos arregalados.
“Dona Sueli, por favor, vire à direita. Pronto, agora à esquerda.  A 100 metros, vire à direita novamente. Ziguezagueando fomos em direção a CGH fazendo loucuras que prometi nunca mais fazer desde que troquei o tempo do crachá pelo tempo do relógio.
Pelo WhatsApp comecei a implorar ajuda ao meu filho.
– Busca os voos para Curitiba
– Procura o telefone da Gol em CGH
– Descobre se meu voo está na hora
Nada funcionava. Nada dava certo. O trânsito piorava a cada segundo. Os faróis pareciam triplicar o tempo no vermelho. Quase chegando, um enorme caminhão decidiu bloquear a rua para fazer uma complexa manobra. A esta altura eu já fazia as contas de quantas horas levaria dirigindo e pesquisava como alugar um carro.
Dona Sueli, condoída com meu drama, teve uma atitude disruptiva: furou o primeiro farol da carreira Uber dela. Com lágrimas nos olhos agradeço baixinho. “Obrigada dona Sueli. É muito importante para mim.” Ela sorri, contente.
17h30, hora de relógio, adentrei feito uma louca em Congonhas. Correndo, fui para o guichê prioridade da Gol. A mocinha de laranja me viu e antes de eu balbuciar “Cu..”, disparou: já fechou o despacho. Com essa mala você não embarca.” Me jogaria nos joelhos dela se percebesse algum tipo de emoção em seu sorriso cínico.
– Mas eu já fiz o check in…
– Então embarque sem a mala, ela devolveu, fria.
A platéia ao redor assistindo meu desespero, sugeriu: coloca no guarda bagagem do subsolo.
17h35 de relógio, rumei para a escada rolante. A essa altura, minha mala grande dava sinais de fadiga. Não corria mais pelos corredores. Se arrastava barulhenta porque uma das rodinhas havia desistido da sua função. A outra pequena de mão, rebelde, batia em quem se atrevesse andar ao meu redor.
Quando entrei na escada, um movimento mal feito deu cabo da sacola Nespresso que eu carregava. Cápsulas de café Leggero e Ristretto voaram em direção piso térreo do aeroporto, aquele que conduz ao estacionamento. Até os executivos esbaforidos pararam para assistir a cena pastelão da ex-companheira de viagem.
Com o rabo do olho, vi um segurança vindo em minha direção. Fui imediatamente injusta com ele.
– Moço não briga comigo, por favor, apelei.
Nada disso. Ele apenas queria, solicito, me ajudar. Assim o fez. Ajudou a juntar as cápsulas e carregar as malas. O homem do departamento de bagagem pegou tudo, depois que catei a roupa de palestrante. Solidário, me liberou do pagamento antecipado. Claro que eu não tinha dinheiro, só cartão. Meu filho tinha levado os 50 mangos da minha carteira.
Com mochila, malinha é um tanto de tralhas na mão disparei para o embarque às 17h44.
– por favor, meu voo vai decolar
– por favor, meu voo vai decolar
Repeti tantas vezes, com tanta convicção e súplica, que todas as barreiras foram se abrindo. No raio X passei de relógio e cinto. Se fosse terrorista…No alto falante, ouvi pela primeira vez o meu nome. Claudia Giudice dirija-se imediatamente ao portão número 8. O voo para Curitiba está encerrado. Ah, terror. Terror.
17h51, alcancei o finger. Estava suada, vermelha, desmilinguida, transfigurada. Enfim, era um vexame. Quando viro a curva, alívio. Faltavam 8 pessoas para embarcar. Minha falta de hora de relógio não estava atrapalhando uma multidão. Quando entrei no avião senti uma enorme vontade de chorar. De raiva. De dó. De pena. De gratidão. De arrependimento.
O comissário leu meu transtorno e ofereceu água, que aceitei humilde.
O tempo é de Deus, portanto coisa séria. Hora de relógio é igreja. Não dá para esticar nem puxar. Ou respeita-se ou purga-se. Juro nunca mais passar por isso. Especialmente agora que o tempo é meu e, na medida do possível, faço dele o que eu quiser.

A carne louca da Villar é de enlouquecer

 

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Eliana e meu filho, Chico, em abril deste ano, no lançamento da Carne Louca da Villar

 

“Hoje tem carne louca da Villar.”

Essa frase era sussurrada como um segredo valioso nos corredores da empresa. Quem contava sorria. Quem ouvia, sorria também. Era a senha que garantia que o final de tarde seria saboroso e alegre. Foi no início do século XXI que eu ouvi o alerta pela primeira vez.

Foi no começo do século XXI que conheci Eliana Villar, a chef criadora da carne louca mais gostosa que já comi. À época Villar era produtora free-lancer de um evento batizado de “Tempo de Fazer” organizado por uma de publicações dedicada à artesanato, corte  e costura, bordado e outras “manualidades”. Competente, eficiente, dedicada e guerreira, não demorou para ser contratada e ostentar, com orgulho, um crachá. Os colegas, claro, aplaudiram. Eliana adorava agradar a turma trazendo sua carne louca nas festas de aniversário do departamento.

Há dez anos, começamos a trabalhar na mesma área e ficamos amigas. Portanto, deixo claro que este texto não é imparcial e está impregnado de carinho, respeito e muito querer bem. Garanto, no entanto, que a história é boa e deliciosa.

Enquanto comandava um time craque na produção de grandes eventos – camarotes, prêmios, festas de Réveillon, exposições etc – Villar começou a cozinhar para fora. Era um jeito prático de ganhar um a mais para ajudar nas contas, trocar de carro, financiar a tão sonhada casa própria. Sim, já disse que Villar é guerreira. Se o tempo está ruim, ela dá um jeito de fazer ficar bom. O sucesso das quentinhas com carne louca foi imediato. Vários colegas de empresa faziam encomendas gordas para o final de semana. Acendia ali uma luz. Eureka.

Sempre que a vida corporativa ficava dura, que o troca-troca de chefes tornava a rotina mais complicada, falávamos de ter um plano B. Eu já sonhava com minha pousada. Villar dizia que compraria uma kombi para vender sua carne louca na esquina. Sonhávamos acordadas, mas o prazer de trabalhar e o orgulho de carregar o crachá que tínhamos não nos deixava tirar o pé do chão.

Inaugurei minha pousada em 2012. Fui demitida em 2014 e comecei a viver minha vida sem crachá. Eliana Villar sobreviveu ao passaralho dos chefes. Seguiu na firma e no comércio paralelo da carne louca. Até que uma pedra cruzou o seu caminho. Pedra do tipo pedregulho, insignificante, mas que incomoda o pé. O pedregulho, apesar do tamanho mínimo, mandava na escalação do time. Villar dançou no final de 2015. A hora da guerreira virar empreendedora estava chegando.

Dona de um networking fabuloso, conhecera e acompanhara por causa do trabalho a chegada no Brasil da onda dos food trucks. No lugar de kombi, por que não um tuk tuk? Em sociedade com seu marido, o fotógrafo Fábio Duque, investiu em um charmoso equipamento para vender sua imbatível carne louca. Em 16 de abril deste ano, inaugurou o novo negócio cercada de amigos queridos. Sucesso absoluto. (Veja as fotos

Desde então, ela e Fábio estão em todos os lugares da capital paulistana. Shopping Center na zona leste, museu da Casa Brasileira, no Jardim Europa, porta de empresa, inclusive na ex-empresa, desfile do São Paulo Fashion Week, na pista do Design Weekend no Jockey Clube. Um luxo. Uma ralação absurda. Um resultado recompensador.

No último domingo Eliana me mandou uma mensagem de voz.

— “Clau, arrebentamos no DW neste final de semana. Decidi comprar quatro garrafas de prosecco, doze taças de acrílico e vender a bebida junto com a carne louca. Sabe o que aconteceu? Vendi tudo e tive que comprar mais quatro garrafas. Cobrei 15 reais a taça. Uma loucura.”

— “Que bacana, Villar.” Eu respondi também em mensagem de voz e não esperava ouvir o que ouvi.

–“Clau, tive a ideia de vender prosecco inspirada na história do menino João do seu livro, A Vida Sem Crachá. Lembra? Ele aproveitou um congestionamento para vender água? Aproveitei o público classe AAA para vender uma bebida quase tão cara quanto o meu lance. Estou muito feliz.”

Eu também estou feliz por você, Eliana Villar. E tenho certeza que o menino João ficaria muito orgulhoso por ter inspirado o seu sucesso. E para você que está com água na boca, louco para comer a carne louca da Villar, basta segui-la para descobrir onde você encontra a delícia.

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