15 anos de amor e música

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Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

Sai piaba, saia da lagoa. Sai piaba, saia da lagoa.

A dona aranha subiu pela parede. Caiu do aranha.

Rebola a cintura, dá uma umbigada.

O que tem na sopa do neném? O que tem na sopa do neném?

Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Samba lelê precisava de umas boas lambadas

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O mar é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe neste colchão de amar

O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem quando a gente dorme?

Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem…

Estou morrendo de saudade. Rio de sol, praia sem fim. Rio você foi feito pra mim. Cristo Redentor, Braços abertos, sobre a Guanabara…

Eu quis dizer você não quis escutar, agora não peça não me faça promessas

Meu coração, não sei porque. Bate feliz quando te vê. E os meus olhos ficam sorrindo

Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas. Je vois la vie en rose.

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Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos 

Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada

Foi assim com versos, acordes e sons que quinze anos se passaram. Passou rápido como um segundo. Parece ontem. Mas foi tanto. Tão intenso. Tão grande. Tão, tão, tão absoluto. 

Foi amor. É amor. Foi música. É música. 15 anos de amor e música. Essa pode ser a síntese tão difícil de fazer e escrever. Detalhes, episódios, instantes. É tudo tão relevante para mim e para todos aqueles que fizeram parte dessa história, desse amor, dessa canção.

Música, amor e poema. Descoberta. Aprendizado. É permanente. Contínuo. É felicidade. A maior que já senti. A maior que sentirei. Insuperável. Inacreditável.

 

Amor e música que embalam a nossa história. Amor e música que alimentam a vida do meu filho, Chico, 15 anos, uma alma excepcional feita de som e sentimento.

 

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A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse não inúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

A princesa do povo

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Onde você estava quando a princesa Diana morreu? Muita gente se perguntou isso hoje, quando o calendário marcou a data redonda dos 20 anos da morte da princesa do coração dos ingleses e do mundo.

Eu estava em Brissac, uma pequena cidade no vale do Loire, na França. Eu era editora da equipe de São Paulo da Revista CARAS e participava da cobertura dos eventos do Castelo  da revista naquele verão europeu. Dias antes, havíamos organizado o casamento da atriz Carolina Dieckmann com o ator e artista circense Marcos Frota. Por isso, em 31 de agosto de 1997, um domingo, estávamos tranquilos. O material da boda já tinha seguido para São Paulo e tínhamos uma linda capa para a semana. Naquela época, a tiragem da revista superava 400 mil exemplares. Naquela época, a revista “fechava” às 19 horas de todas as segundas-feiras. O telefone que tocou às 6 da matina mudou tudo.

Os jornalistas em São Paulo, horas atrás no fuso, ficaram sabendo da tragédia na madrugada e nos despertaram para avisar. A ordem era urgente. Levanta da cama e viaja para Londres. Londres? Eu não conhecia Londres. Se vira. Levantei da cama, catei umas roupas e corri para a estação de trem. Desci em Paris e lá encontrei nosso correspondente, Alvaro de Almeida, que já havia providenciado a passagem para Londres. No meio do caminho, falávamos com a agência para reservar hotel. Um corre corre danado. Uma adrenalina absurda. Pelo celular, um tijolo de plástico da Motorola, combinávamos com São Paulo como seria a cobertura. Tínhamos pouco mais de 24 horas para fazer a tradução da morte da nossa princesa!

Hoje, em tempos digitais, é difícil avaliar a relevância da morte da Diana e a relevância da cobertura feita pelas publicações impressas sobre qualquer assunto relacionado a uma celebridade mundial como ela. Acompanhávamos, semanalmente, a vida dela. Semanas antes, pagamos uma fortuna por uma série de fotos dela passeando de iate com Dodi, seu namorado de então, em uma praia européia. Era um flagra armado por ela com os fotógrafos (ela era mestre na manipulação da mídia), no qual aparecia diáfana e feliz, de maio branco, olhando o horizonte com cara de apaixonada. Especulava-se que ela poderia estar grávida do milionário anglo-egípcio.  Diana era tão próxima dos nossos leitores quanto qualquer estrela da TV. Diana era princesa. Diana era linda. Diana tinha causas humanitárias. Diana tinha carisma. Quem não torcia para que, enfim, ela tivesse um final feliz nos braços de Dodi?

A bordo do Eurotrem, que cruzava veloz o Canal da Mancha, senti o peso da responsabilidade. Não conhecia Londres. Não conhecia ninguém em Londres e tinha poucas horas para me virar nos 30 e produzir material de qualidade para a edição que fechava no dia seguinte. Da estação corri para o hotel (chiquérrimo, porque naqueles anos as revistas eram ricas e os jornalistas tinham boa vida), com o mapinha da cidade nas mãos.

Vamos lembrar: em 1997, celular era algo raro, caro e precário. Servia apenas para falar ou para atirar na cabeça de alguém. O que era muito em um tempo em que as pessoas se comunicavam por carta, telegrama, pombo correio e telefone fixo com telefonista para fazer ligações internacionais. A internet ainda era movida à lenha. Google ainda não era nada. Quando pesquisávamos, usávamos um tal de alta vista. Rede social? Ahh? Não, esse termo ainda não existia.

Larguei as coisas no hotel e fui para a rua. Como eu faço agora?, pensei já quase em pânico.

O amor dos ingleses por Diana me salvou de perder o emprego 17 anos antes do prazo. Bastou colocar o pé na rua para perceber que a cobertura seria simples. Bastava olhar e sentir. Bastava me emocionar e escolher personagens tocados por aquela indescritível dor. Os caminhos à seguir também se mostraram fáceis. Era só seguir mulheres, homens, jovens e famílias que caminhavam constritas, com flores e bonecos de pelúcia na mão. Rapidamente percebi que seguiam todos em direção ao palácio de Kensington, última residência da princesa.

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Quando lá cheguei, me surpreendi com o silêncio. Era um silêncio pesado de dor e saudade. E flores, muitas flores, com mensagens escritas à mão, que traduziam o carinho e a sensação brutal de perda dos súditos da “rainha do coração dos ingleses”. Poucas vezes, vi tanta gente sofrendo a mesma orfandade. Despidos de pudor, os ingleses choravam sem disfarçar lágrimas e soluços. Haviam perdido a “princesa do povo”, a princesa amiga, parceira, que sofriam com e como eles. Entrevistei uma senhora que chorava muito. Não lembro o nome dela. Mas lembro, perfeitamente, que no final de nossa conversa, lhe dei um abraço que ela aceitou sem cerimônia. Juntas choramos aquela morte besta, de uma mulher jovem, linda e bacana que podia ser nossa amiga e que parecia, como nós, ter um futuro incrível pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

Conselhos

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Abro uma pasta onde uma etiqueta branca traz a legenda em letra cursiva:

Poemas, matérias, check ups, desenhos e memórias.

Abro. Surgem emails dos século passado. Brota um conselho de um importante diretor de redação, que comentava, generoso, o meu primeiro texto na revista que ele comandava. Aparece uma carta inventário de outro manda-chuva recém chegado de um sabático esculhambando o trabalho que fazíamos sob nova gestão. Relembro quantas dores de estômago essas mensagens provocaram um dia. Sorrio. Tempo, tempo, tempo. Senhor da razão e do fígado. Nada faz sentido.

Apenas o poema que diz: “seus olhos estavam cerrados. Com aquela expressão de abismo para mergulhar no sonho.”

Apenas o outro poema que aconselha:

“No resplendor das criaturas, busca o esplendor do Criador

na simetria das formas puras,

busca o Sem-Forma, o Sem-Cor.

Nos nomes de todas as Escrituras,

Busca o inominável Autor.”

Foi escrito em agosto de 1991 por um amigo que sumiu da minha vida. À época não fui capaz de compreender a mensagem. Perdi. Pena. Paciência. Tudo faz sentido.fullsizeoutput_10c4

 

Memórias

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BigBrother chamado WordPress me avisa que, em breve, comemoro três anos de blog. Faz tempo que não escrevo. Estava de férias? Não. Estava escrevendo no computador para imprimir no papel. Mas, pelo jeito, o momento impressão vai demorar um pouco mais. Por isso, para não perder o hábito nem os leitores, decidi voltar a batucar por aqui. Os assuntos são os de sempre, perdoem-me.

Vida. Viagem. Descobertas. Sentimentos (todo e todos). Obsolescência. Patrimônio pessoal. Vergonha e a perda dela. Vulnerabilidade assumida. Lembranças. Aniversários. Coisa de 50+. A minha turma. E sim, muitos, muitos planos B. É meu mantra. É minha vida. É o jeito que entendo poder colaborar com alguém.

Ontem ganhei um presente. Um amigo amado, jovem companheiro de muitas pautas, viagens, fechamentos e histórias, Eduardo Lopes, fez fotos minhas para a nova capa do Vida Sem Crachá. Foi um momento especial. Pelo honra de ser fotografada por ele, meu garoto, que se tornou um grande fotógrafo. Pela felicidade de vê-lo tão bem e tão realizado. Pelo prazer de me ver, três anos depois, tão feliz com minha vida.

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Viajamos no tempo e nos números. Nostálgicos, lembramos que há 20 anos viajamos pela Itália, depois de uma temporada de trabalho no Castelo de CARAS, onde então trabalhávamos. Edu foi comigo e com meu irmão, Pedro, até a cidade de Fiera de Primiero, onde meu bisavô nasceu e de onde ele partiu, menino, no século XIX, para começar vida nova no Brasil. Naqueles dias, passeamos pelas terras dos meus antepassados e revivemos, de carro, o trajeto que eles teriam feito para vir para cá. Quando voltei, escrevi uma reportagem na qual contava a experiência. As fotos, claro, eram do Edu.

Larguei o batuque e fui procurar a memória. Tentar achar a reportagem para poder transcrevê-la aqui. A bagunça não deixou. Mesmo assim, abri o meu baú de couro com tachinhas douradas. Há 40 anos, guardo nele o que me importa. Abri e me perdi. Me encontrei. Me lembrei. Fotos. Bilhetes. Cartas. Poemas. Jornais antigos. Revistas. Recortes. Saudades. Amores. Dores. Alegrias. Muitas. Tristezas. Intensas. Mexendo nos papéis, revivi situações esquecidas e confirmei como sempre fui privilegiada, amada, querida. Li um texto de uma amiga querida que me fez chorar de tanto carinho: “espero que você seja tão feliz quanto faz aos outros. Que tenha a melhor das vidas – é merecida, pedaço, por pedaço. Fique bem. E conte comigo sempre.”  Conto, conto mesmo, com todos vocês.

 

 

 

 

De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

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Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.