Quem vive de passado é museu

A primeira vez que ouvi a frase do título, senti vontade de ser surda. Me ofendi. Protestei. Adoro museu. Não vivo do passado. Será?

Hoje caminhando pelas ruas de Higienópolis, em São Paulo, onde vivi alguns dos melhores anos da minha vida tive um ataque agudo de nostalgia. Parecia filme francês. As cenas, com efeito blur, que combinavam com o dia azul de outono, foram fazendo cineminha na minha memória. O dia em que a gata Nuit apareceu… O dia em que recebi o telegrama avisando que eu tinha sido escolhida para o curso Abril… O dia que tomei o maior porre do mundo… O dia em que fui pedida em casamento… O dia em que trouxe meu filho bebê para casa…

 Descendo a avenida Angélica, surtei quando não vi o edifício Brasília, de honrada memória, onde morei de 1984 a 1992. Cocei os olhos. Cadê a janela de onde o gato Zanzibar pulou para o telhado? Cadê o terraço, onde Carolina, por tantas vezes sonhei com o futuro? Um prédio novo subiu e escondeu a fachada lateral da minha primeira casa da vida adulta. Contei os andares e fiz contas. 

Meu passado, 52 anos bem vividos anos, já é maior do que provavelmente será o meu futuro. E agora, José? Frente à inexorável realidade, decidi optar pelo modo museu a céu aberto, igual ao da minha querida aldeia hippie. O que isso significa? Significa que pretendo colecionar obras que podem ficar no tempo, que são passíveis de interação e abertas a variadas formas de fruição.

 Posso ser também um museu intinerante e, como tal, carregar meu acervo para outros lugares e outros públicos. Parece bom. Parece desespero de alguém buscando uma desculpa para a dor do envelhecimento. Ambas alternativas valem. Não é fácil descobrir-se “vivido”. O tempo corre e as boas memórias permanecem vividas, como se tivessem acontecido ontem. Fecho os olhos e me vejo jovem. Abro os olhos e procuro os óculos para ler o cardápio da padaria. Meu amigo chega e deixo o devaneio para depois. Preciso decidir se meu Museu abrirá todos os dias ou se ficará fechado às segundas.

Plano P, de procrastinar

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Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

Esse verbo é a maldição de quem está a procura de uma saída, uma alternativa e, especialmente uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final.

Você está me imaginando deitada na rede da fotografia que ilustra este post, olhando para o mar da Bahia?Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir para rede social para ver o que está rolando e sempre está rolando algo nessa nossa quinquagésima fase da operação caça político safado na Operação Lava Jato.

Hoje, amém, passou. Comecei cedo a cuidar do filho, do cachorro, da casa, dos emails. Abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, tentou me levou ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos.”

Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Não era apenas sexo, drogas e rock and roll. Acho que tinha medo e insegurança na parada. Perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que no final a Roberta vai querer editar o livro? Será que com essa crise o livro vai vender? Será que ele vai fazer a diferença?

A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação impressa: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. Isso fazia muito sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Hoje em dia, é falsa justificativa para preguiça mesmo. Acelera. Em frente, marche.

Férias, agora entendi

Tenho 51 anos e vivo aprendendo coisas novas. Nestes últimos doze dias, aprendi o significado real da palavra férias. Aproveito para pedir desculpas àqueles que tiraram férias em minha companhia antes dessa descoberta.

Férias é um período de pausa, mas principalmente de mudança. Hora de trocar de ares, no caso de quem pode viajar. Hora de trocar de hábitos, em geral. Troquei muito de “ares”. Essa foi a primeira vez que mudei os hábitos. Simples e óbvio, mas eu era incapaz de fazê-lo. Achava que tinha que desbravar, percorrer e conquistar: milhas, lugares, restaurantes, estrelas, atrações. Tirava férias como eu trabalhava: sofregamente.

Dormir? Apenas as seis horas regulamentais. Sentar e ficar de boa? Só para recuperar o fôlego. Enquanto conhecia, tinhas ideias, criava pautas, negociava, vendia, planejava, respondia mensagens, telefones e E-mails. Sim, nestes doze dias respondi e-mails. Tinha hora para fazê-lo. Só à noite. Com calma. Perdi reservas ? Talvez. Paciência. Não vou morrer de fome por isso.

Nessas férias, aprendi inclusive a dosar o uso das redes sociais. Olhei poucos as timelines. Postei pouco também porque não ganho para isso e estava pagando (caro) para descansar. Nossa como os dias renderam. Nossa como vi, aprendi e conheci lugares.

Em meu último destino, Firenze, cidade dos meus antepassados, vi uma cena que me impactou. Uma casal chinês jantava no restaurante I Latini, no anos 80, o preferido da classe média fiorentina. No meio do jantar, com vinho e bisteca, o jovem chinês, cansado da maratona e meio embriagado de vinho Chianti, literalmente desabou sobre o prato. A mulher impassível seguir olhando a tela do iPhone 7 dela. O garçon, assustado, foi saber se estava tudo bem. O rapaz se recompôs um pouco, se encostou na parede, mas cinco minutos depois tombou novamente. A noiva seguiu no celular. Quando pedi a conta, comentei com o garçon a cena. Ele foi definitivo:

“- Não foi a primeira vez, nem será a última. Eles não tiram férias. Eles viajam como se estivessem em uma maratona. Não é prazer. É trabalho. Chega a noite, estão mortos. Eles têm dinheiro e eu tenho pena deles. ”

Ponto final. Que garçon danado de inteligente. Bravo!

Fazer a mala

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Abro a mala sobre o sofá e uma luz se acende. Paro tudo e reparo nela. Perdoem-me se parece estúpido ou ridículo, para mim é muito, muito relevante. Estou em estado de quase férias. Viajo segunda-feira, 8, depois de cinco meses de trabalho muito intenso. 7 por 24, sem qualquer exagero. Pela primeira vez desde 1987, faço uma mala com quatro dias de antecedência. Isso significa que pela primeira vez em 30 anos, tenho controle sobre o meu tempo e o meu desejo. Pude decidir e escolher deixar os textos que estou escrevendo para depois e focar nas roupas, nos sapatos, nos remédios e objetos que quero levar para o meu passeio.

É uma bobagem, eu sei. Tem gente que, inclusive, paga para outrem fazer esse serviço. Mas para mim está sendo importante. Parei para escrever porque queria deixar registrado na minha história, esse momento de enorme alegria e felicidade. De liberdade. De privilégio. De poder. De vitória.

Até já. Minha mala me espera.

Ideia de jerico

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Encontrei o texto abaixo na timeline de um amigo. Reproduzo na íntegra porque vale e faço uma reflexão/ideia de jerico no final. Acho que vale porque tudo o que é de jerico é bom.

 

Meu amigo escreveu o seguinte:

1) O Mp3 faliu as gravadoras;
2) O Netflix faliu as locadoras;
3) O Booking complicou as agências de turismo;
4) O Google faliu a Listel, Páginas Amarelas e as enciclopédias;
5) O Airbnb está complicando os hotéis;
6) O Whatsapp está complicando as operadoras de telefonia;
7) As mídias sociais estão complicando os veículos de comunicação;
8) O Uber está complicando os taxistas;
9) A OLX acabou com os classificados de jornal;
10) O celular acabou com as revelações fotográficas e com as câmeras amadoras;
11) O Zip Car está complicando as locadoras de veículos;
12) A Tesla está complicando a vida das montadoras de automóveis;
13) O email e a má gestão complicou os Correios;
14) O Waze acabou com o GPS;
15) O 5 andar está acabando com as imobiliárias que intermediam aluguéis;
16) O Original e o Nubank ameaçam o sistema bancário tradicional;
17) A “nuvem” complicou a vida dos “pen drive”;
18) O youtube complica a vida das tvs. Adolescentes não assistem mais canais abertos;
19) O Facebook complicou a vida dos portais de conteúdo;
20) O Marketing de Rede mudou a forma de comércio;
21) Tinder e similares complicando baladas e “similares”;

E você quer viver como vivia há 10 anos atrás? Você ainda quer viver com os “direitos” trabalhistas que saem do seu próprio bolso, como se vive desde 1940?

 

Verdade, mano.

22) Com o fim da CLT, chegou o uber profissões.  Precisa de um médico? Chame o Uberdoutor mais perto da sua dor. Precisa de um construtor? Uber engenharia de obra feita. Precisa de um dentista? Ubertiradentes. Precisa de um professor? Uberpapaisabetudo. Como paga? Por minuto de consulta. Aceita-se cartão de crédito, em três parcelas. Atende-se em domicílio, na rua, no carro, no café, no coworking.

Topa?

 

Como eu trabalho – entrevista

Como trabalha Claudia Giudice

Claudia Giudice é empresária, jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade São Paulo e autora do livro A Vida Sem Crachá.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Começo o dia cedo. Durmo de janela aberta e acordo com a luz. Tenho uma rotina que muda conforme o lugar que estou, São Paulo, Arembepe ou Salvador.

Em São Paulo, levanto para ajudar meu filho a ir para a escola. Depois passeio com o cachorro pelas ruas do bairro, tomo café e começo a trabalhar. Faço uma agenda de trabalho com tarefas para concluir. Sempre.

Na Bahia, acordo, checo as reservas, reabro o sistema operacional e vou à vila de bicicleta buscar o pão fresco. Ajudo a arrumar o café da manhã dos hóspedes. Sirvo. Dou uma geral. Quando acalma, vou tocar minhas outras tarefas.

Como você administra o seu tempo? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?

Toco vários projetos e trabalhos ao mesmo tempo. Cuidar da pousada, cuidar da loja de arte popular, Coisas da Ninoca, cuidar da rede social, cuidar do blog, escrever o próximo livro sobre Plano B e tocar o projeto do museu a céu aberto na aldeia hippie de Arembepe. Preciso aprender a trabalhar menos. Risos.

Como é sua relação com a tecnologia? O e-mail tem interrompido sua vida produtiva? Que ferramentas você usa para se manter organizada?

O e-mail é uma das minhas principais ferramentas de trabalho. Faço as reservas da minha pousada por e-mail. Uso e-mail, WhatsApp, redes sociais. Para me organizar, uso minha agenda de papel com listas de coisas para fazer escritas à mão, como antigamente.

Como costuma ser o seu local de trabalho? Você precisa de silêncio e um ambiente em particular para trabalhar?

Trabalho em casa quando estou em São Paulo. Mas posso trabalhar em qualquer lugar. Não preciso de silêncio. Na Bahia, trabalho na recepção, na varanda, na frente do mar, em qualquer lugar. Gosto de trabalhar também no clube, em cafés e se for preciso até dentro do carro.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?

As minhas ideias surgem de conversas, leituras e situações do cotidiano. Gosto muito de andar ou pedalar pensando na vida e nos meus projetos. São situações que me ajudam a criar. Tomar banho de chuveiro ou de mar também ajudam as ideias.

Como você lida com bloqueios criativos, como o perfeccionismo, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Eu começo a fazer. O livro que estou escrevendo, por exemplo, começou a ser escrito como uma colcha de retalhos. Vou fazendo e a angústia diminui. Depois, vou arrumando, mudando, mexendo, editando. Não sou perfeccionista. Sou adepta do “bom o suficiente”. Vou fazendo, fazendo e os pontos vão se ligando. Uma das vantagens da idade é perder a vergonha de errar. Saber da própria vulnerabilidade. Entender que o erro e o fracasso são maiores que o sucesso. Raro é dar certo.

Você desenvolveu técnicas para lidar com a procrastinação? Que conselhos sobre produtividade não funcionaram para você?

Detesto a procrastinação. Ela sim, me paralisa. Preciso fazer, acabar logo, para me sentir livre, feliz, em paz. Por isso, tenho dificuldades de lidar com a preguiça. Por isso, também, trabalho mais do que quero e preciso.

Qual é o livro que mais mudou a sua vida e por quê? O que você considera inspirador ler ou aprender sem que lhe peçam ou esperem isso de você?

São tantos os livros que mudaram a minha vida em diferentes momentos dela. Adoro literatura. Adoro poesia. Adoro biografia. Mas acho que o livro que mudou a minha vida foi o meu, A vida sem crachá, porque depois que eu o fiz perdi a vergonha de me expor e me arriscar.

Que conselho você queria ter ouvido aos vinte anos? Com o que você sabe hoje, se tivesse que começar novamente, o que você faria de diferente?

Acho que gostaria de ter ouvido que eu poderia encarar a vida de modo mais leve e relaxado e aproveitar mais as situações espetaculares que vivi. Mas confesso que tive grandes mestres e ouvi muitos conselhos fundamentais. Não sei o que faria diferente. Fui muito feliz a vida toda e mesmo os momentos de dor e sofrimento foram muito importantes para eu chegar até aqui. Não abro mão deles. Talvez eu apenas teria relaxado um pouco mais e evitado algumas crises lombares.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

O meu projeto para 2020 será um sabático/volta ao mundo. Não chego a contar os dias, mas ficarei feliz quando a data chegar. Sobre livros, gostaria de ter mais tempo para ler muitos que ainda não consegui ler.

Gratidão

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Gratidão é tipo gentileza. Brota. Brota por geração espontânea. Quanto mais gratidão, mais gratidão. Quanto mais gentileza, mais gentileza. Hoje eu ganhei uma montanha de gratidão. Hoje eu preciso devolver um Everest de gratidão.

Me reuni com uma amiga e colega querida. Já escrevi sobre ela aqui no blog para falar sobre a melhor entrevista de emprego que já fiz. O motivo do encontro – além de matar a permanente saudade – foi falar do projeto de um livro sobre Plano B (sim, agora vai sair). Conversa vai, conversa vem, acertamos tudo. Prazo, modelo, formato. Já estava me levantando para ir embora quando ela, sempre ela, me derrubou no chão com uma dose cavalar de emoção.

— “Preciso te dar uma coisa”, disse esticando para mim um envelope pardo, tamanho meio sulfite. “Demorou, mas estou te devolvendo o dinheiro que você me emprestou quando eu fui roubada e fiquei sem grana para pagar o aluguel. Tem juros, que calculei no site do Banco do Brasil, e tem minha imensa gratidão”, acrescentou. No cheque, o bilhete que reproduzo acima. Nos olhos, uma gratidão que afirmo não merecer afinal nem me lembrava do empréstimo. No peito, senti uma emoção e uma gratidão enormes por ela ser quem é, por ter o privilégio de privar da amizade dela e me fazer lembrar da gratidão que devo a centenas, quiçá milhares, de pessoas que foram sempre tão generosas e carinhosas comigo.

Enquanto eu a abraçava para agradecer pelo gesto tão nobre, lembrei de muita gente que fez muita diferença na minha vida da mesma forma que Roberta diz que fiz na dela. Acho que não demonstrei, à altura, minha gratidão e graças ao encontro de hoje, terei tempo e pressa de fazê-lo. A minha lista é um abecedário. Começa com meus pais e, se Deus quiser, só termina no cemitério. Um fio de nomes, como aquela canção, Gente, do Caetano. Amigos, me aguardem.

Roberta, você é a segunda da fila. Minha gratidão pelo carinho e pela oportunidade de fazer esse projeto tão bacana com você. Já estou trabalhando. #PlanoB#100 lições de gente que mudou de vida. #100 lições que mudam a vida da gente.