Passagem

IMG_6071

— Oi, bom dia, tudo bem?

— Bom dia. Está tudo bem. Tudo ótimo. Hoje é a formatura do meu filho.

Hoje, 16 de novembro, passei o dia repetindo essa frase. Contei para o porteiro, para o padeiro, para a minha inquilina, para todos os amigos, para a vendedora da loja de bíquinis.

Ontem, antes de embarcar para São Paulo para vir à formatura do meu Chico, contei para todos os hóspedes. Para os amigos de Arembepe. Para a vendedora do mercado. Para a dona do hortifruti. Para Almir, vendedor da Ninoca, para Rose agente da quilombola da Cordoaria, para os meus amigos dos grupos de WhatsApp. Agora, não me cabendo em mim de tanta emoção, catei o computador para escrever . Quem sabe se depois de colocar em palavras, eu me contenha. Eu me estabilize. Eu me aprume.

Por que tudo isso, afinal ele, Chico, só está se formando no nono ano? Por que tanto exagero se ainda faltam o ensino médio, a faculdade, o mestrado…?

Porque sim, é a primeira resposta.

Porque estou feliz e emocionada é a segunda resposta.

Porque hoje ele faz uma importante passagem é a terceira resposta, mas racional, objetiva e igualmente emocionada.

Estou fazendo essa onda toda porque  acho que a entrada no Ensino Médio, colegial do meu tempo, marca a entrada definitiva na adolescência e na juventude. A infância oficialmente acaba. É uma passagem. Um caminho sem volta para uma trilha que entendo linda, divertida, criativa e libertadora.

Meu pequeno Chico fica na memória e na fotografia acima. Hoje, ele deixa de ser menino grande para se tornar um jovem homem. Um adulto aprendiz. Alguém capaz de cuidar de si e dos outros. Alguém apto a criar e a produzir. Alguém que pode até procriar (não, não, por favor, ainda não, é muito cedo). Alguém apto para ser senhor de si e cidadão do mundo.

Hoje, na hora do almoço com os avós na cabeceira, lembramos do primeiro dia de aula. Da primeira escola que não deu certo. Da segunda, Grão de Chão, que o abrigou tão carinhosamente. Lembramos dos professores e professoras. Lembramos das festas. Lembramos dos passeios. Lembramos da rotina do início da vida escolar, quando para acostumá-lo à distância da casa, eu fazia um longo passeio antes de deixá-lo na escola. Íamos ao parque da Água Branca. Dávamos comida aos cavalos. Brincávamos com as tartarugas. Víamos o pavão e as abelhas. Feliz, percebi que ele se lembrava de tudo.  E sabia que era mentira quando diziam que eu ficava o tempo todo do lado de fora no café esperando a aula acabar. “Eu olhava pela fresta e via que você não estava lá, já tinha ido trabalhar”, comentou Chico, hoje, orgulhoso.

Comecei a escrever esse texto à tarde, antes da cerimônia da formatura. Parei para tomar banho e ir. Ainda bem. O ponto final não podia acontecer antes da emoção real, concreta, verdadeira.

Foi lindo ver Chico grande discursando em homenagem a uma professora que irá se aposentar. Foi bacana vê-lo e sabê-lo querido pelos professores e colegas. Foi quente vê-lo lindo e estiloso de terno azul tocando “eu fico assim sem você”.  O que valeu a vida, a minha e a dele, foi vê-lo descer do palco, com uma rosa nas mãos. Sem titubear entre a mãe e a avó, com um sorriso especial nos lábios, ele entregou a flor para Maria, a Mamá, que junto comigo o cuida e o cria. A Mamá que o nina e o alimenta desde o dia em que saímos da maternidade, há quinze anos. A Mamá que generosamente dividiu seu amor entre Luciano e Cristiano, filhos dela, e Chico, filho nosso.

Sim, a passagem está feita. Chico aprendeu matemática, português, desenho, inglês e literatura. Chico aprendeu a fazer amigos. Chico aprendeu a respeitar os mestres. Chico tem conhecimento. Chico tem sabedoria. Chico é amor.

DG3A6860

Chico, vovó e Mamá: muito amor

 

Anúncios

Amor intransitivo

Eu amo

Tu amas

Ele ama

Nós amamos

Vós amais

Eles amam

Amar. Tipo de verbo: regular. Transitividade: transitivo direto, intransitivo e pronominal. Gerúndio: amando. Particípio passado: amado. Infinitivo: amar.

Ah meu Deus, como ela odiava gramática. Na verdade, ela odiava o mundo cheio de regras, ordens e arrumações. A gramática era a regra, a ordem e a arrumação na forma mais chata. A gramática tentava conter a fala. Dominar a palavra. Restringir a conversa. Se meter no papo. Atrapalhar o fluxo. Reduzir o encanto. A gramática era um porre.

Ela odiava gramática na mesma proporção em que amava literatura. A literatura era, na verdade, sua cúmplice no desafio de aprender a ler e a escrever sem aprender as regras. Graças a literatura, ela aprendeu a escrever “de ouvido” para usar uma expressão dos virtuosos que tocam violão sem saber música. Regência? Concordância? Crase? Conjugação? Transitividade? Não, não sabia explicar, mas sabia o que era certo ou errado de tanto ler e repetir. Algumas coisas, é verdade, escaparam. Ela até hoje tem vergonha quando lembra do seguinte diálogo:

— Por que você escreve obrigado e não obrigada?

Silêncio

Silêncio

Silêncio

A resposta foi safa. “É brincadeira. Escrevo obrigado por causa do Fábio Júnior, que diz “obrigadu”. Mas às vezes o corretor corrige, o dedo escapa e sai obrigado.

— Ah, que engraçado.

Findo o dialógo, realizado na era pré-google, ela correu para os livros e descobriu que mulheres falavam “obrigada” e não “obrigado” como ela escrevia sempre no final das mensagens.

A história do amar verbo intransitivo segue sendo, portanto, um mistério, já que ela leu e amou o livro do Mário de Andrade mas ainda não conseguiu entender porque o verbo amar pode ser transitivo direto, intransitivo e pronominal. Quer dizer, ela até entendeu porque já amou muito e esse sentimento é mesmo dúbio, estranho, esquisito, incontrolável, indomável e avesso às regras. Por isso, talvez, a gramática tenha sido assim tão ampla e aberta com o verbo.

Afinal, dizem, que verbos transitivos são verbos que, tendo sentido incompleto, necessitam de um complemento verbal para completar o seu sentido. Amar, portanto, necessita de um objeto direto ou indireto. A gente, em geral, ama alguém ou alguma coisa.

É?

Amar a si mesmo é amar alguma coisa? A dúvida era recente. Sim, há poucos dias, depois de ler um livro — sempre eles — ela descobriu que amava profundamente a si mesma. Era uma paixão louco, que ao ser descoberta a fez e a faz andar de sorriso nos lábios, rídicula, como as cartas de amor. A descoberta do amor próprio foi recente e chegou junto com o aniversário de 52. Não houve nenhum fato especial, nenhuma situação externa, apenas um entendimento claro e sútil. Ela amava a vida que tinha. Amava a pessoa que se tornara. Amava o jeito. Amava as escolhas. Amava-se. Não era um amor narciso. Ao contrário. Ela amava especialmente os defeitos, as fraquezas e a capacidade recém-adquirida de aceitar a própria vulnerabilidade. Ela amava o fracasso e o caminho cheio de buracos que havia escolhido. Amava também a solidão. Amava o desprendimento. Amava o passado e as roupas velhas.

Epa, epa, epa.

Ela deu um google e leu: “verbos intransitivos são verbos com significado completo, não sendo necessária a junção de objeto direto e objeto indireto para complementar o seu sentido. Referem-se a ações que iniciam e terminam no próprio sujeito, não transitando para um objeto.”

Ela se amava. Ponto. Ela era o sujeito. O verbo era o verbo. Ela se amava. Ela não precisava mais do amor nem da aprovação de ninguém. Ser amado era bom, era gostoso, era agradável, mas não era mais necessário. Ela, enfim, não precisava fazer ginástica olímpica nem malabarismo do Cirque de Soleil para ganhar sua dose diária de amor. Bastava existir. Bastava ser. Bastava amar. A si mesmo como aos outros.  Amor próprio, sem ciúmes nem conflito. Apenas amor. Intransitivo.

 

Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse a mais tempo
Não amava quem amei

Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou
Ele agora está mais firme
Do que quando começou

E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar (ah, o amor)
E se não tivesse o amor

No Abaeté tem uma lagoa escura
Arrodeada de areia branca

CAETANO VELOSO, IT S A LONG WAY

 

 

 

 

 

A conquista da vulnerabilidade

Captura de Tela 2017-11-07 às 23.21.46

Ela sempre se orgulhou de duas coisas. Ter uma alma sem relevo e raramente sonhar.

A alma sem relevo facilitava a vida. Privava de dores. Encurtava caminhos. Resumia os sentimentos. Encurtava os períodos de tristeza. Espantava a depressão.

A escassez de sonhos lhe dava orgulho. Um dia, ouviu dizer que os iogues também não sonhavam. Apenas dormiam um sono profundo e algumas horas depois acordavam prontos e revigorados para a vida. Ela era muito orgulhosa e tinha orgulho dessa semelhança. Apesar de jamais desejar ser iogue. Ela não gostava de meditar.

Um dia, no entanto, ela sonhou. O sonho era muito, muito estranho. Ela estava em um avião. O que sempre foi comum na vida dela. O avião começava a cair. Cair. Cair. Ela sentia medo. Muito medo. Mas não achava que ia morrer. Ela não morreu. O piloto deu um jeito. O avião se espatifou com jeito no chão e ela saiu ilesa.

Na sessão de terapia da quarta-feira pela manhã, ela contou o raro sonho para a analista. A versão que ela deu para o enredo foi espetacular. Ela, que se achava foda, entendeu a quimera como um sinal de poder, controle, domínio e invulnerabilidade.

Com muita certeza, ela falou: “Sabe Marta, eu sei que as coisas estão difíceis para o meu lado. A vida está dura. Não estou entregando o resultado. O trabalho está puxado. Mas esse sonho… acho que ele significa que eu vou sobreviver. O avião vai cair mas mesmo assim manterei o controle, seguirei viva. Invulnerável. Sempre foi assim. Essa é a minha grande qualidade”, ela afirmou. Marta era freudiana e nada falou. Ouviu. Anotou. Tentou saber mais detalhes. Não tinha. Ela havia contado tudo.

Na semana seguinte, ela sonhou de novo. Não estava mais em um avião. O veículo era um carro. Ela adorava carros. Esportivos. Conversíveis. Velozes. No sonho, ela estava numa estrada íngrime, com curvas estranhas, meio que disputando uma corrida com um funcionário da equipe dela. Ele era executivo também. Ambicioso também. Sem filtro e sem escrúpulo também. Era capaz de tudo para entregar o número. Missão dada, missão cumprida, especialmente se na ponta da linha tivesse um bônus gordinho.

No sonho, eles trombavam. Ninguém se machucava, mas o carro dela pifava e o dele seguia ileso. Que nem na Fórmula 1. Ele a deixava para trás, comendo poeira. Ela sabia que tinha perdido. Mas na hora de resumir o enredo onírico, deu um jeito de ficar bacana na fita. Dourou a história. Interpretou. Disfarçou. Ponderou. Marta ouviu tudo novamente em silêncio. Anotou. Perguntou detalhes. A sessão acabou.

Na sessão seguinte, a queda do avião e a trombada do carro se tornaram excelentes metáforas para o que estava acontecendo com a vida dela. A pessoa invencível, invulnerável, campeoníssima, todo-poderosa, tinha tomado um pé na bunda fenomenal, seguido de uma rasteira. Estava na lona. Ferida. Pelada. Escalpelada. Na hora, ela não lembrou dos sonhos. Nem mais falou sobre eles. Apenas tentou mostrar que estava bem e que podia caminhar sozinha.

Se despediu de Marta com uma desculpa esfarrapada. Disse que ficaria indo e vindo e não poderia mais manter a rotina de sessões. Verdade. Mentira. Queria mesmo era fazer economia. Eliminar o custo supérfluo.

O tempo passou. Ela se virou como pode, sem as sessões de análise e sem os sonhos. A alma até ganhou umas colinas, que ela subiu e desceu para ganhar músculos e curar a dor. Teve jeito. Teve conserto. Teve fé e, graças a Deus, ela encontrou a melhora dela.

Na semana passada, ela visitou uma livraria. Tinha que esperar uma amiga. Na prateleira do térreo, encontrou um livro escrito por uma conhecida. Ficou curiosa, folheou, leu a orelha e comprou. O dia em que morri em Nova York, da jornalista Milly Lacombe. A história era diferente da dela mas tinha muito a ver com ela.  Devorou o livro. Enquanto, o engolia lembrou. Lembrou dos dois sonhos esquecidos. Lembrou de outro livro lido e de um texto já escrito. Juntou as peças.

Sonhos  são como deuses. Quando não se acredita neles, deixam de existir. E a gente se ferra porque erra muito. Ela se ferrou, mas não durou. Não sonhava, mas acreditava nos deuses. Foram Eles que a colocaram no devido lugar.

Como assim? Assim, derrubada das nuvens e do Olimpo, ela entendeu que era vulnerável. Logo, humana. Logo, falha. Logo, sensível. Logo, verdadeira. Logo, fraca. Logo, forte. Logo, bacana. Logo, safa. Logo capaz e pronta para sacudir a poeira e levantar. Dar, a seu modo, um volta por cima. Se amar acima de todas as coisas, como Ele sugeriu. Ao fazê-lo, descobriu de verdade o que significava ser feliz.

 

 

 

Jesus seja louvado!

baba

Aconteceu assim.

Era feriado e a criança acordou cedo. A mãe não deu conta de fazê-la parar de chorar. Para não acordar o pai, cansado, decidiu sair com o menino de casa. Aproveitar para fazer mercado. Lá ele sossega, pensou.

Menino pequeno, viaja de cadeirinha. Colocou o pequeno lá, no banco de trás. Foram rodando pela cidade deserta. Todo mundo ainda em casa, dormindo até acordar, graças ao dia festivo. Na porta do mercado, um espécie de boutique de delícias, encontraram uma placa educada.

Hoje o Santa Luzia ficará fechado por motivo de feriado religioso.

O que fazer? Dar meia volta e buscar outro assunto. Mãe e filho seguiram no carrinho, um corsa azul, quatro portas, pequeno e discreto. Subiram a Augusta ainda vazia. Cruzaram a Paulista, àquela época ainda aberta ao tráfego, viraram na Luís Coelho. A mãe tinha lindas memórias daquela rua.

Virou-se para trás e falou ao filho bebê.

– Sabe que a mamãe nasceu ali?

Ela apontava a maternidade São Paulo, berço da maior parte dos bebês abastados dos anos 60/70 do século passado. Talvez o passado remoto tenha produzido a reação no pequeno curioso.

Do silêncio fez-se o pranto e a agitação. Como um boneco de posto de gasolina, ele começou a agitar os braços e o tronco para tentar escapar da prisão da cadeirinha de segurança. Na virada da Matias Aires, a tentativa de fuga virou rebelião armada. A mãe até tentou contê-lo com um braço, enquanto que segurava o volante com o outro. Não deu. Ciosa, parou o carro quase na esquina, do outro lado da banca de jornal.

Desceu e foi à guerra no banco traseiro. O bebê fofinho, tipo Johnson, havia se transformado. Era um pedúnculo. Um capeta de cachos loiros. Um exu mirim. Berrava e lutava contra a mãe, determinada a amarra-lo novamente na cadeirinha , da qual ele havia escapado.

A berraria é interrompida por um toc toc na janela. “Que hora para alguém pedir informação”, ela pensou. Gentil, baixou o vidro manual, enquanto tentava fechar o cinto de segurança em torno do corpo do filhote.

— Jesus seja louvado! Pare de bater em seu filho. Vamos chamar a polícia, disse a mulher do lado de fora do carro, acompanhada por um homem de terno.

— Jesus seja louvado, repetiu ele. Senhor, afaste o demônio do corpo dessa mulher.

— A mulher endemoniada sou eu, pensou ela enquanto segurava seu bebê fujão pelo tornozelo.

O mantra do Jesus seja louvado interessou o garoto que parou de berrar e passou a se divertir com a fala do casal do lado de fora. A mãe, desesperada para se livrar dos dois, teve uma ideia genial.

Com olhar esbugalhado e sorriso Monalisa nos lábios, começou a berrar também:

— Amém, Jesus. Que o senhor seja louvado. Adeus capeta que partiu do meu corpo. Amém Jesus. Que o senhor seja louvado.

Os gritos dela agradaram o casal, que foram baixando o tom, baixando, baixando, até se calarem.

— Vá com Deus, irmã, disseram antes de partir.

Suando, ela viu o casal subir a ladeira. O bebê estava quieto, sentado na cadeira. Tinha um sorriso maroto nos pequenos lábios.

— Você está rindo do mico que sua mãe pagou, né sua peste? Vamos para casa e agora sem dar um pio e sem se mover dessa cadeira.

A mãe, então, voltou para o banco do motorista, engatou primeira e partiu.

Com fé em Deus e a paz de Cristo.

Aconteceu assim

Aconteceu assim.

Ela subia a escada. Um, dois, três, quatro degraus. No quinto, a ficha caiu. É claro que todo mundo sabia. Só ela acreditou na bobagem do “todos fomos enganados”. Já com o pé no sexto degrau, ela entendeu que a vida dela havia sido virada do avesso por puro “rabo”. Milagres acontecem e o desastre anunciado ficou para depois.

— Será hoje?, pensou com o calcanhar no sétimo degrau.

“Não, tranquilize-se. O desastre já aconteceu e você nem tchuns”, esclareceu Lu, o anjo dela que mora no escuro mas adora iluminar tudo com sua boca escancarada de dentes brancos. “Relaxe, desfrute e seja bem-vinda.”

Meio tonta com tantas revelações, ela até tentou pensar positivo. Não deu. Com o pé fraco, comum aos claudicantes, pisou em falso no nono degrau, pequeno e curto. Tombou antes de fazer a passagem para o décimo.

Por cansaço ou preguiça, abdicou de buscar apoio no corrimão da escada caracol. Tipo Alice, se soltou. Foi descendo, descendo até ser acolhida no quinto. Afinal, o inferno são os outros.

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

Captura de Tela 2017-10-11 às 22.15.27

Acordei com essa dúvida hoje. Lá fora fazia sol. Logo, a questão não é filha de depressão pré-feriado de chuva. Também não passo por nenhuma crise. O assunto não é apenas meu, mas do mundo. Na verdade, ele brota da empatia. Estou envolvida com muitos amigos queridos que estão precisando urgentemente de um plano B. Agora há pouco, conversei com o amigo de uma amiga que estava pensando em fazer o dele depois de participar de um programa de demissão voluntária da Petrobras. Ele quer ser dono de pousada. Espero poder ajudá-lo.

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

Tenho 52 anos, nunca ouvi meus pais, menos ainda meus avós falando de plano B. Ninguém pensava nisso, muito menos precisava disso. A razão é banal. O mundo e a vida eram planos e lineares. Os desejos e inquietações muito básicos. Os filhos, em geral, seguiam as escolhas dos pais para definir com quem casar, onde trabalhar, o que ser e fazer. A herança definia os nossos destinos, com extraordinárias exceções. Quase ninguém precisava de plano B, porque não era certo ter uma alternativa. A vida seguia bem mais curta do que hoje e os atropelos estavam relacionados a grandes catástrofes.

Meu avô paterno, por exemplo, era o primogênito de uma família de treze irmãos, filhos de fazendeiro rico de café do interior de São Paulo. Ele precisou de um plano B em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York destruiu, como uma bola de neve, a economia mundial. Ele mudou-se para São Paulo, trocou o uniforme de herdeiro pelo de trabalhador. Foi funcionário do banco Comind a vida inteira dele. Tinha hora para entrar e para sair. Almoçava em casa, o mesmo cardápio, todos os dias. Felizmente morreu antes de o banco falir em 1985. Acreditem, a instituição pagou regiamente o salário dele, que no final da carreira era de diretor financeiro, até morrer aos 74 de idade. Bom tempos aqueles.

  1. O primeiro pingo no i

    Ter um plano B, na real, é ter uma saída, uma alternativa. Vale para momentos ótimos, bons, médios, ruins e péssimos. Ele é um facilitador. Com o tempo, ter plano B se torna um modo de vida. O cérebro se acostuma a pensar alternativas. Quase como um jogo. Pode se tornar tão automático quanto escovar os dentes antes de dormir ou trocar a marcha do carro no trânsito. Acredito que para tudo existe um plano B. Com exceção da morte. Ela, que ironia, só é plano B do suicida.

 

Via Láctea, Renato Russo

Por que plano B?

Captura de Tela 2017-09-30 às 17.46.52

 

Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.