Um plano B para chegar aos 70

Tenho o defeito de pensar demais. A cabeça para pouco. Está sempre pensando. No banho, na piscina, no mar, enquanto pedalo, enquanto dirijo o carro. Basta estar só e lá estou eu no gerúndio: refletindo,  planejando e “euloucubrando” (um jeito doce de assumir a loucura mansa). Dessa vez a reflexão surgiu durante uma leitura. Anos 70. Enquanto corria a barca, da jornalista Lucy Dias. Cheguei no livro porque estou estudando a contracultura, especialmente no Brasil, especialmente nos anos 70, especialmente em Arembepe, na Bahia. O livro fala muito do mestre, guru e pesquisador e protagonista do assunto, Luiz Carlos Maciel, que foi dono e autor de uma coluna sobre o tema no jornal Pasquim, nos anos 70. Curiosa, fui ao google saber do Maciel. Wikipidia me contou que ele está vivíssimo, com 78 anos. Outro link, de 2015, me levou a uma reportagem do site GGN na qual o jornalista confessava estar sem trabalho, com a grana curta, muito disposto a prestar serviços naquilo que sabe e domina. “Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel.”

Maciel tem um currículo extraordinário, uma história de vida espetacular e inúmeros amigos relevantes para a cultura e história do país. A necessidade de alguém como ele fazer um apelo deste gênero — que eu pessoalmente desconhecia — me fez mergulhar em um túnel reflexivo. Em qual página do nosso manual de instruções deveria estar escrito que precisamos de um plano B para encarar a vida pós-70 anos?  É piada, claro, porque Deus desistiu de escrever esse manual no sábado à noite e no domingo descansou. Na juventude, os baby boomers e filhos da geração X jamais sonharam com a hipótese de viver mais do que 70 anos com corpinho de 60 e cabeça de 30. Logo, ninguém pensou no assunto. Não tem manual, não tem receita e sobreviver depois dos 70 é um big deal para todos os que não estão na lista da Forbes.

Sim, estou falando de grana. O primeiro objetivo do plano B é ter dinheiro para viver com dignidade, considerando:

  1. a dificuldade de se aposentar na previdência pública no Brasil;
  2. a baixa adesão à previdência privada do time dos BB e X
  3. a baixa renda em tempos de crise
  4. a rara oportunidade de empregos

Não, não estou falando só de grana. Afinal, quem viveu 78 anos – e não precisa ser alguém com a biografia do Maciel – não quer só dinheiro, quer felicidade. Não quer só comida, quer bebida, diversão e balé. Como é que faz? Como é que se prepara? Como se equipa?  É possível transformar o eclipse no melhor instante da vida? É sensato sonhar com isso?

Eu não tenho as respostas ainda, mas uma rápida pesquisa no pai dos burros, dr. Google, garante que sim. Pesquisas de universidades de Estocolmo, Suécia, e Boston, nos Estados Unidos, repetem o óbvio, aquele senhor tão sábio e bonito. O segredo é fazer exercícios e ficar em forma, comer comida boa, beber sem pisar na jaca, ter muitos, muitos amigos para fazer companhia e farra e, principalmente, não perder o hábito de se sentir jovem.

Tudo muito bom, tudo muito bem e crível. Sim, acredito nisso. Mas como é que se faz? Como manter a fleuma e força de vontade? Como manter o desejo de seguir sempre em frente? Como vencer a preguiça? Como vencer o tédio? Como pensar em projetos para preencher as vontades, sonhos e necessidades? Como saber a hora de parar de trabalhar? O que fazer depois de parar de trabalhar? Como criar uma nova rotina? Como tornar esse pedaço da vida tão legal e divertido quanto os anteriores?

Se encontrar alguma resposta, juro compartilhar no próximo capítulo. Deixo vocês com a canção do Caetano, que odeia envelhecer, mas canta que o “homem é o rei dos animais”. Verdade, verdade.

 

 

 

 

 

 

 

Orgulho

captura-de-tela-2017-02-09-as-18-50-32

Ter orgulho dos filhos é digno. Ter orgulho de um legado é saudável. Acho o orgulho uma coisa besta quando ele é auto-dirigido. Orgulho é quase um pecado capital quando se derrete em torno do próprio umbigo. Tanto que no pai dos burros, ele carrega seu duplo sentido freudiano:

orgulho
substantivo masculino
  1. 1.
    sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra.
  2. 2.
    pej. sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba.

Como este blog nasceu com o formato de um divã em praça pública, vou confessar o que só diria para a Marta, minha competente, generosa e saudosa ex-analista. Hoje, fui soberba. Senti incontível  orgulho ao mandar meu email @pousadaacapela cheio de selinhos, prêmios e estrelas para uma reservas das minhas férias. Fiz a descoberta há pouco, quando recebi a resposta de um colega de setor, uma pousada de agroturismo em San Giminiano. Ele também tem selos e estrelas, mas as minhas são muito mais bonitas. Isso é orgulho e pretensão.

Na encarnação antiga, eu sentia muito orgulho das publicações nas quais trabalhei e dirigi. Não eram minhas, mas meu sentimento de posse era igual ao que tenho em relação à Capela, cuja escritura e CNPJ figuram em meu nome e no de minha sócia. Confesso novamente a soberba que eu tinha ao enviar mensagens assinadas com o selinho das marcas que eu tatuava no peito. Dava prazer. Dava satisfação. Era uma honra.

Quando mudei de casca, pele e vida, confesso, outra vez, tinha certa timidez. Para meu ego inflado e doente parecia pouco ser apenas “dona de pousada”. Me sentia (estupidamente) como aquele craque que tinha tido a aposentadoria antecipada por uma entrada dura e maldosa no joelho. Hoje, exatos três verões depois após um dia chatinho, nublado, congestionado de pepinos, tive essa saborosa epifania.

Orgulho besta, verdade. Mas eu quero tanto bem a ele. E, sinceramente, desejo que todos os que perderam o crachá — somam-se 12 MM — tenham a oportunidade de ter um orgulho besta assim.

Oportunismo é o lado negro da força da oportunidade

captura-de-tela-2017-02-07-as-17-02-07

Sempre ouvi que a crise é o momento perfeito para aqueles craques em encontrar oportunidades onde os pernas-de-pau só acham buracos na grama. É verdade. Mas é uma verdade perigosa, mentirosa, escorregadia, viscosa, nojenta e repugnante quando alguns malandros confundem oportunidade com oportunismo.

A primeira semana de fevereiro parece que abriu os bueiros e ralos para cobras, escorpiões e lacraias, em geral, saírem do bueiro à procura de otários. Topei com um ontem. Tropiquei com outro hoje. Vou contar minha saga, porque quem não tem crachá carece de departamento jurídico e quem não tem diploma de direito toma cada susto.

A Pousada A Capela não é uma Coca-Cola. É uma pousada simples, bonitinha, honesta, com serviço decente, prestado por uma equipe dedicada, gentil e feliz. Labutamos muito. Não ganhamos milhões, mas estamos, satisfeitos, vivendo nosso quarto ano de casa cheia. Nossa marca não é trend top. Nossa marca não vale milhões. Nossa marca não havia sido registrada no INPI, porque o que importa, na prática, é o registro do CNPJ, o alvará de funcionamento, a URL do site (esta, sim, registrada), o endereço físico, a plaquinha na porta e o serviço nosso de cada dia. Acontece que a nossa pousadinha ganhou alguns prêmios e volta e meia aparece na mídia. Outro dia mesmo, a capelinha foi cenário de uma entrevista sobre contracultura (que heresia) e sobre o museu a céu aberto na aldeia hippie de Arembepe. Essas coisas, que na prática valem pouco, muito pouco, no mundo dos larápios, são pretexto para um golpe(zinho). Foi o que rolou hoje.

Estava eu labutando bem cedo, quando tocou o telefone. Número de São Paulo. Um escritório de sei-lá-o-que, porque não entendi direito o que a mulher-máquina-marketing-telemarketing falava. Falou, falou, falou e com esforço entendi que ela questionava o fato de a marca Pousada A Capela não ter sido registrada. Dizia haver alguém,  cliente dela, interessado na mesma para abrir uma pousadinha em Ilhabela, São Paulo. Respondi que não sabia e ia averiguar. Desliguei. Segundos depois, recebo um email de outra empresa oferecendo serviços caríssimos para registrar a minha marca no INPI. Pediam 2 contos pela assessoria jurídica mais um monte de outros contos pelo trabalho de registro.

logopousada

Black light. Acendeu a lâmpadinha eureka do mal. Tinha bububu no bobobó ou Donald Trump, o novo rei do Universo Paralelo, havia assinado um decreto celestial fazendo todas as marquinhas serem tão desejadas e valiosas quanto “a maçã”, “o buscador”, “o carro”, “o refrigerante”. Olhei a timeline do portal. Nada de novo além do Alexandre Careca. Novo sinal de alerta para a picaretice oportunista dos malandrinhos de plantão.

Me fiz de idiota, porque no fundo sou mesmo. Respondi agradecendo os serviços e fui à luta. Na minha antiga encarnação, registrei um milhão de marcas, que de tempos em tempos ficavam ameaçadas de caducar. Uma vez por ano, fazia uma revisão. Matava algumas. Sustentava outras. O jurídico era quem fazia a burocracia para mim, mas felizmente sempre soube o caminho das pedras.

Hoje fui lá, tipo João e Maria, catando as pedrinhas no site do governo. Pesquisei se algum gaiato havia registrado minha marquinha. Petição negada. Rumei para o botão de pagamento e imprimi um GRU para chamar de meu. Paguei R$ 142 no Banco do Brasil e parti para o registro. Qualquer ser alfabetizado faz. Escolhe a categoria. Preferi a mista para proteger meu logo. Apliquei o nome. Mandei a marca digitalizada. Selecionei o setor, no meu caso serviço + hotel. Dei enter. Cento e quarenta reais e cinco cliques depois, o registro estava em processo, com todos os documentos impressos, bonitinhos, na minha mão. Sim, pode até ser que os gaiatos tenham feito o mesmo que eu horas antes de me telefonar e teremos uma guerra de pulgas contra formigas nos próximos capítulos. Dane-se. Rebatizo a pousada de “Pousada A Capela com as deliciosas coxinhas da Nil”ou “Pousada A Capela da dona sem crachá.

O olho do furacão dessa história é o maldito oportunismo daqueles que preferem tentar ganhar dinheiro fácil às custas de quem trabalha duro e decentemente. Fiquei pensando no tipo de empreendedor que cria uma empresa para buscar oportunidades de extorquir dinheiro. Que fica vasculhando caminhos para ganhar dinheiro fácil de incautos e distraídos. Tipo Eduardo Cunha que fez todos os registros digitais possível com o nome/marca de Jesus. Quer abrir um site “jesusteama.com.br”? Tem que comprar o registro do presidiário mais inominável do país.

O outro caso que aconteceu comigo foi de natureza diferente. Um empresário estrangeiro me ofereceu serviços para instalação de um sistema de energia alternativo. Me interessei e comecei a pesquisar. O que ele dizia de fato fazia muito sentido. Valia a pena. Era um bom negócio. Me interessei mais. Fizemos outra reunião. Ele trouxe um orçamento. Fui à luta. Fiz aquilo que todo empresário, micro, pequeno, médio ou grande, deve fazer antes de fechar um contrato: pesquisa. Pesquisei o assunto. Pesquisei fornecedores. Pesquisei preços. O amigo gringo, simpático, inteligente e aparentemente eficiente, tinha um preço de uma centena e algumas dezenas de milhares de reais a mais por conta da “assessoria/mordomia”que ele prometia oferecer. Coisas do tipo: “abro sua conta no banco”, “aprovo seu financiamento”, “resolvo sua vida”. Perguntei algumas vezes como ele ganharia o dinheiro dele e o gajo nunca foi claro. Nem, ao menos, cravou: “ganho 20% sobre o valor total do serviço”.

Na segunda-feira, quando disse que faria com outro fornecedor com preço melhor e igual qualidade, o homem subiu nas tamancas. Ficou bravo, muito bravo e sugeriu que eu estava sendo desonesta. Que havia me aproveitado dos estudos feitos por ele para tomar minha decisão. Pensei um bocado antes de responder. Fiz e refiz o texto do whatsapp algumas dezenas de vezes. Respirei fundo. Abri mão da minha razão. Abdiquei da vontade de falar algumas verdades, de protestar contra o preço abusivo, de evocar meu estilo mão na massa. Apenas pedi desculpas, lamentei, disse que havia feitos pesquisas  e que decidira por uma soma de fatores. Agradeci a atenção. Agradeci os votos irônicos de sucesso. Desejei sinceros sucessos e deletei a mensagem.

Em tempos de crise, é melhor ficar longe de cobras e lagartos.

A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

img_0699

 

– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

 

 

 

 

 

Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

captura-de-tela-2016-12-26-as-19-25-28

Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá. No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho

É só um emprego

E um salário miserável

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro de 2016 em Davos, na Suíça, teve como tema  “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

A escala é massiva. Quase metade (47%) de todos os trabalhos nos EUA e 35% na Grã-Bretanha estarão suscetíveis à automatização pela tecnologia nas próximas duas décadas, de acordo com a a revista The Economist e os pesquisadores da Universidade de Oxford. A Consultoria McKinsey relatou em estudo recente que 140 milhões de trabalhos poderão ser automatizados até 2025. Vivemos a Era do Gelo do emprego. Ele está em extinção como os dinossauros e derrete como picolé no deserto. Na opinião de Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum de Davos, é um caminho sem volta. “Só com uma atuação urgente e focada, a partir de agora, será possível gerir ests transição a médio prazo e criar uma mão de obra com competências para o futuro. Sem isso, os governos enfrentarão desemprego crescente e constante e muita desigualdade”, alerta Schawb.

O processo está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais. As áreas administrativas e de escritório serão os mais afetados. Vão sofrer também segmentos da medicina impactados pelo avanço da telemedicina, seguidos pelos de energia e indústria, construção e extração, entretenimento e comunicação, e ainda, o setor jurídico. Já os setores de negócios e operações financeiras, gestão, computação, arquitetura e engenharia, vendas, educação e treinamentos juntos terão um crescimento de 2 milhões de empregos. Apesar da expansão do setor do conhecimento, 2 menos 5 é igual a 3. Serão três milhões de empregos a menos. Duro.

A Arca de Noé dos que sobreviverão com crachá tem uma lógica própria, segundo o especialista em futuro e tecnologia, Bruno Macedo, autor do texto O fim do emprego e a ascensão do trabalho com propósito na era das máquinas inteligentes. “Haverá uma maior demanda por especialistas em big data, desenvolvedores de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes e, também, por vendedores especializados. As mulheres poderão ser as mais afetadas com o declínio dos setores administrativos, escritórios e vendas. A matemática segundo o relatório de Davos será: a mulher perderá cinco empregos para ganhar um, enquanto os homens ganham um emprego perdendo três.” Sem exagerar, quase todos perderão, com exceção dos gênios.

Não sou gênio. Tenho mais de 50 anos. Sou mulher. Me tornei estatística em 2014. Perdi meu emprego de 23 anos. Ainda não conhecia a matemática de Davos, mas rápido percebi que não havia outro crachá para pendurar no meu pescoço àquela altura do campeonato. Intuitivamente, embarquei na nau dos descobridores do trabalho com propósito na era do pós-emprego. Mulheres e crianças primeiro. Não há motivo para festa. Não há motivo para pânico. A mudança é inexorável. A existência será precária, mais simples e possível. Menos será mais. Vou explicar.

Antes de falar do propósito, a parte legal, incrível, dessa história, vamos pingar alguns is. O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. O sistema financeiro funciona 24 por 7 e alguns correntistas são atendidos por “gerentes digitais”. O Fábio que me atende, por exemplo, trabalha na casa dele. Se for à agência não vou encontrá-lo, mas posso receber a resposta de um whatsapp às 22 horas. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (link para a palestra http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). “Não é a toa que se discute o PL 4330, da terceirização, e que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais. Os jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) entram no mercado com contratos temporários ou informais, sem direitos trabalhistas e a mão de obra não qualificada é terceirizadas, às vezes quarterizada. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar’, diz Cocco.

Enquanto escrevo este texto, sinto na pele – ou melhor, nos dedos, nos ombros pesados e na cabeça cheia de assunto – essa urgência. Preciso produzir conteúdo para tentar vender projetos. Procuro, sem certeza de sucesso, personagens dispostos a falar sobre contracultura por causa de um museu que pretendo montar. Troco de página no Facebook e faço um post para divulgar meu site e uma palestra que farei na próxima semana. Feito isso, abro o site do Booking.com para checar reservas e melhorar a oferta de preços da minha pousada. Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria. A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Ele tem razão. Para não perder o passo e o espaço para a máquina tecnológica, somos forçados a trabalhar sobre nós mesmos o tempo todo. Não basta faculdade, é preciso ter master, pós, mestrado e doutorado. Para garantir empregabilidade, não basta mais ter a força-de-trabalho para vender. É preciso ter ideias inovadoras, geniais e disruptivas. O capitalismo cognitivo explora também a criatividade e a produção de subjetividade, parasitando todos os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para nos mover (transporte como mercadoria), para nos comunicar (conectividade é condição de sobrevivência) e para nos divertir. Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos estão, veja só, as redes sociais. O amigo Facebook é de graça, mas ele não nos paga pelo conteúdo bacana que produzimos. E sem conteúdo legal, o algoritmo nos deixa invisíveis.

Tem saída? Mesmo precária, conceitualmente endividada e vítima do capitalismo cognitivo — que se baseia na exploração da criatividade e da produção da subjetividade –, acho que tem. A minha crença não é fruto apenas do meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso. O termo, para o filósofo Alain Touraine, define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

É nesse ponto que surge a ideia do trabalho com propósito. É nessa curva de rio que a esfera cultural ganha proeminência. É nesse instante de absoluta precariedade e conflito, que a subjetivação procura uma forma de escapar da pressão por meio da construção de laços de forma reflexiva e criativa. Preciso citar novamente Alain Touraine. Para ele, a subjetivação se dá sob a forma de conflito, de luta contra poderes que limitam a autoconstrução, resistindo ao mundo impessoal e de consumo, à lógica de mercado, e à violência da guerra. Esse processo é indissociável da luta pela afirmação de direitos universais (igualdade política, jurídica, etc.) e específicos (pela liberdade, pela particularidade). Essa “causa” seria um conteúdo fundamental da subjetivação. Como ele afirma: “sente-se sujeito apenas aquele ou aquela que se sente responsável pela humanidade de um outro ser humano”.

O trabalho com propósito é repleto dessa força. Deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre (1960 e 1980), que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo, e percebeu que era hora de mudar.

Mudar pra onde? Mudar como?

Se fosse possível, o ideal seria mudar para Marte para facilitar a transformação. O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás. A saber:

  • estamos falando de uma nova filosofia de trabalho que aposta na transição do “work to” (trabalhar para) para o “work with” (trabalhar com);
  • o crescimento deve ser orgânico e sustentável;
  • o risco, a perda e a falha devem fazer parte da natureza do negócio. É preciso haver liberdade para criar e arriscar. É fundamental saber perder;
  • doar parte do lucro pode ser uma das chaves do sucesso;
  • produzir impacto social é condição;
  • ter uma estrutura horizontal, franciscana e enxuta;
  • operar em rede com colaboradores, fornecedores e consumidores, numa equação de ganha-ganha e múltiplas parcerias;
  • aprender a operar com pouco custo, zero desperdício e muito compartilhamento;
  • aprender a viver com menos para poder ganhar menos e viver com menos pressão, menos angústia, menos sofrimento e menos ansiedade. O paradoxo/equação do – = +.

 

Propósito.

 

Menos.

 

Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluídos, flexíveis em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito. O mundo amanhã vai ser completamente diferente do que é hoje”, avisa Bruno Macedo. Quem olhar para o lado verá que a quarta revolução industrial está desmontando os modelos tradicionais, um a um, substituindo-os por negócios disruptivos. Exemplos? A TV aberta sendo substituída pelo consumo de imagens on demand no You Tube ou no Netflix rodando no smartphone. Jornais e revistas minguando pela força do consumo de informação digital. O compartilhamento de ativos pessoais, como carros, vagas de garagem e carros, reduzindo o tamanho do mercado automobilístico e ao mesmo tempo diversificando as fontes de receita das pessoas.

 

A vida com plano B

 

No século passado, plano B era um recurso utilizado para quando tudo dava errado. Ninguém queria ter um plano B. Ele era sinal, símbolo e signo de fracasso. Hoje, plano B é condição. Deveríamos aprender a construí-los ainda no ensino fundamental, junto com as operações aritméticas. A razão é singela. Todo mundo vai precisar de um plano B em algum momento da vida, especialmente se der tudo certo e ela for longa e saudável. A novidade da vida sem crachá e com propósito é a possibilidade, bem-vinda, de todos termos múltiplas carreiras. O que isso quer dizer? Que deixou de ser vexame mudar de carreira e atividade ao longo da vida. A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/ escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluído. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

A história da publicitária/jornalista/designer e agora artesã paulistana Beth Klock é exemplar. Depois de perder o último emprego em uma grande editora, ela percebeu que não teria nenhuma chance de recolocação. Também não tinha mais idade nem saco de trabalhar com publicidade, assessoria de comunicação ou estratégia. Partiu então para o design. Começou a desenhar com os dedos na tela do iPad. Definiu um estilo próprio e lindo. Usou a rede social para divulgar seus talentos. Graças ao grupo Dots, uma rede fechada de empreendedores individuais, micro e pequenos, encontrou parceiros e clientes. “Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida”, diz Beth, que recomenda aos que estão à procura de um rumo experimentar fazer coisas que nunca fez antes. “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos. Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, onde cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico onde as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que por centavos podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil. A ideia dele é um imposto de renda ao contrário. O governo paga para o cidadão sobreviver em um modelo open source. “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos. Simples assim. “Quem quer ser muito rico não pode se espelhar, nem se inspirar, num negócio como o meu”, escreveu Bel Coelho para o projeto Draft (http://projetodraft.com/no-clandestino-bel-coelho-desconstroi-o-restaurante-tradicional-abre-so-uma-semana-por-mes-e-vive-bem/), site que diariamente traz histórias de pessoas buscando trabalhar e viver com propósito.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente. Custa 260 por pessoa, ou 380 se o jantar for harmonizado com bebidas alcoólicas.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita  desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz. “Eu resolvi, por aprendizado, fazer o contrário. Fiz um investimento inicial na cozinha e depois ir evoluindo e melhorando coisas no salão e na cozinha, conforme o tamanho vai aumentando. Busquei autonomia, Dinheiro não é o mais importante. Não me arrependo de nada. Sou muito mais feliz hoje”, garante. Ela acha que ganha menos, provavelmente, do que ganharia se estivesse num esquema tradicional. “Acho que vou ganhar mais, em algum momento. Mas quando você busca autonomia e é de fato autônomo, demora para se estabelecer como estava no mercado tradicional”, diz.

 Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e alguns meses. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos. Dali nasceu a vontade de ter uma pousada. Depois o projeto de abrir uma loja de arte popular. E agora, mais recente, o sonho de fazer um museu a céu aberto na Aldeia Hippie de Arembepe, na Bahia.

Meus ingredientes secretos? Vou contar. Anota ai:

  1. Fazer o que gosto
  2. Sentir prazer
  3. Inventar moda
  4. Ousar
  5. Aprender
  6. Não sossegar o facho
  7. Ouvir a intuição
  8. Ouvir a opinião alheia
  9. Usar tudo o que sabe
  10. Colocar a mão na massa.

Anotou?

Simples, não é?

 

 

 

 

Aqui. Agora. Amor é tudo o que move

img_2544

 

O melhor lugar do mundo é aqui e agora.

Agora que é quase quando

 Ela, de novo, invade como água os meus ouvidos. Estou de fone, olhando pela janelinha do avião, viajando no formato das nuvens e lembrando da minha incrível manhã.

 

O melhor lugar

Agora que é tudo escuro

Quando era jovem tinha uma mania horrível. Sofria de ansiedade e curiosidade. Queria saber como seria o futuro. Precisava descobrir antes o que faria depois. Bastava ouvir de uma amiga que conhecia uma cartomante maravilhosa, que a mulher havia adivinhado que a Luiza ia começar a namorar com o Roberto, que eu ficava logo excitada e pedia o telefone, o endereço e, mesmo sem dinheiro no caixa, dava um jeito de marcar uma consulta.

Era sôfrega. Agoniada. Tola. Com todo o meu despudor, sigo com vergonha de contar todas as besteiras que fiz na vida porque ouvi previsões de astrólogas, cartomantes, videntes e mães de santo.

Um dia parei. Foi abrupto. Foi radical. Me comportei como um alcóolatra que decide parar de beber e vira sócio do AA. Viajei para a Europa sozinha porque uma astróloga disse que seria bom. Acreditei. Me ferrei. Deprimi. Adoeci. Apavorei. Paniquei. Voltei chorando escondida debaixo de uma manta da classe econômica da finada Vasp. Vexame.

Curei do chilique e da curiosidade. Nunca mais quis saber do futuro. Perdi a pressa de chegar a algum lugar. Parei de ler horóscopo. Parei com o I Ching. Não entrego minha mão para ninguém ler. Apenas rezo e peço a Deus me proteja na ida e na volta. Aprendi com minha vó. Funciona. O amor é tudo o que move. Agora eu vi um lagarto. Morrer deve ser tão frio. Quanto na hora do parto. Aqui, fora de perigo. Agora, dentro de instantes.

A música acabou. Hora de fazer um cochilo. Até.

2017. O que eu quero? Menos, por favor

captura-de-tela-2016-12-17-as-00-26-33

Adoro procurar músicas irmãs. Gêmeas ou antônimas. A diversão é vê-las conversando em acordos sonantes e dissonantes. A brincadeira do dia é Epitáfio, dos Titãs, versus Je ne regrette riens, na voz de Cássia Eller. Um diz que deveria ter complicado menos, trabalhado menos, se importado menos com problemas pequenos e deveria ter morrido de amor. O outro canta que não, não se arrepende de nada. Absolutamente nada. Nem o bem, nem o mal que me fizeram. É tudo igual. Me arrependo de algumas coisas. Talvez porque prefiro mudar sempre, a tempo e a hora, antes que o meu desejo se torne um epitáfio. Nem Titãs, nem Edite Piaf. Quem sabe Rita Lee, com Baila Comigo, como se baila na tribo. O baile da mudança permanente.

O meu ano termina bem. Talvez porque ele não seja líquido, nem moderno nem digital. Meu mundo é concreto, como pedra. Duro. Persistente. Um dia após o outro, das 6 da matina até a última alma notívaga. Estou feliz. Fiz novos amigos. Fiquei com os meus queridos o máximo que pude. Não adoeci. Paguei minhas contas. Abri negócio novo que vai bem. É mais do que suficiente, satisfatório, incrível e extraordinário. Nem é justo mandar cartinha para o Papai Noel. Farei apenas a lista de desejos para o Senhor do Tempo de 2017.

O que eu quero? Aprender. Vale curso presencial. Curso à distância. Supletivo do primeiro grau. Telecurso. Mobral. Quais as matérias?

– aprender a dizer não

– aprender a trabalhar menos

– aprender a sofrer menos

– aprender a me importar menos

– aprender a viver com ainda menos

– aprender a ser menos

Menos fome, menos dieta, menos loucura, menos obrigações, menos irritações, menos palavrões, menos velocidade, menos intensidade, menos sofreguidão, menos arrumação, menos embromação, menos atitude, menos foco, menos pressa, menos angústia, menos razão, menos violência, menos preocupação, menos palpitação.

Menos. Preciso de menos.

Menos desejo. Menos ansiedade. Menos verdade.

Menos texto. Menos palavras.

Menos tudo. Tudo é muito. Menos, apenas.