Corrente de carinho

Há quatro anos, quando inventei a vida sem crachá como um remédio para a minha dor, não tinha muito futuro, muito sonho, nem muita esperança. Eu fui indo, fui fazendo, fui mexendo, fui trabalhando, fui escrevendo. Foi meu jeito de sobreviver. Foi minha forma de não deprimir. Foi minha saída para continuar saudável para cuidar do meu filho, Chico, e dos meus pais. Juro por eles que jamais imaginei ou esperei colher tantos frutos, tanto carinho, tanto amparo, tanta solidariedade. Fiquei sabendo ontem à noite da indicação da Pousada A Capela na matéria da Revista da Folha. Foi a amiga Claudia Maximinoquem avisou, avisada pela amiga Vanessa Lucena Empinotti. Uma da a outra, numa corrente de carinho e felicidade. Ambas são amigas. Ambas são clientes, amigas, frequentadoras da Capela. Casaram aqui. Veranearam aqui. E por isso, fazem parte da nossa história. De mãos dadas numa gigantesca corrente de carinho e amor. Fiquei piegas depois dos 50? Nananina Não! Fiquei mais sábia, mais inteligente e menos modesta. Aos 53, sabemos o que realmente é importante na vida. Descobri que era a amizade o valor maior. Descobri que podia produzir isso na minha, na nossa pequena Capela. Por isso, estou feliz hoje. Por isso, o textão.
Aproveito para agradecer a @Debora Yuri, autora reportagem pela menção a nós. Ela também faz parte agora dessa Roda Vida de gente de paz e bem.

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Rua

Estava atrás da porta esperando quando ela, repentinamente, se abriu. Não sei quem foi porque do outro lado não havia ninguém. Empurrei a porta lentamente para espreitar o corredor. Vazio. Coloquei a cabeça para fora. Ninguém. Nada. Dei um passo, eu pus o corpo inteiro do lado de lá.

Cruzei a soleira. Estava fora. Atrás de mim a porta aberta e o passado. Não senti qualquer nostalgia. Também não senti saudade. Acho que é a idade. Estou perdendo a memória. Olhei para frente e caminhei. A porta aberta ficou aberta e eu não liguei quando entrei no elevador.

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Não sei o motivo, mas deixei tudo para a trás. O relógio. O iPhone. O MacBook. Nem me preocupei em desligar a conta do FB e do Insta. Que seja o que Deus quiser. O cachorro, que está velhinho, não ouviu a chave chacoalhando na porta. Só a gata me viu, mas preferiu ficar parada dentro. Fez a egípcia. Não quis me seguir, nem se aventurar. Não tem saudades do seus tempos de rua. Cuidará da casa, do cachorro, do menino e das histórias.

O elevador desceu direto. Amém. Não precisei sorrir nem dizer boa noite para a velha do nono andar. Não gosto dela. Ela me denunciou à síndica porque um dia desci com o cão pelo elevador social. Solidão amarga. Solidão caduca.

O porteiro gosta de mim e abriu o portão grande para facilitar minha saída. Ele não sabe, mas é meu cúmplice. Porta aberta, cachorro sai para a rua. Rua. Estou na rua. Na rua da  rua. Na rua da cidade. Na rua da vida. Rua.

Abraço

 

 
O homem de lábios finos caminha de braços abertos em minha direção. Ele se esforça para sorrir, simpático, esgarçando ainda mais os lábios muito finos.
 
Sinto dor.
Não quero o abraço dele. O dele nunca. Como escapar sem chamar a atenção? Olho para um lado. Olho para o outro. Uma multidão de homens e mulheres de lábios finos se aproxima. Sorrindo. Esgarçando os lábios. Estão verdadeiramente felizes. Os olhos brilham. Caminham em passo acelerado, como se fossem realizar uma missão. A grande marcha. Deles. Preciso fugir.
 
Estão vindo ao meu encontro. Todos.
Leio nos lábios finos deles o desejo de me abraçar. Querem me envolver. Querem fazer com que eu faça parte da alegria deles. Estou triste. Não quero abraço de ninguém.
 
Por que eu? O que eu fiz? Será que fiz algum sinal errado? Que eu me lembre não tenho lábios finos. Só tenho olhos verdes. Serão os olhos?
 
Diminuo meus passos, buscando com os olhos uma rota de fuga. O homem dos lábios mais finos, olhos miúdos e casaco de sarja bege com emblema do cavalinho está a três metros de mim.
 
— Socorro, socorro, socorro! Grito, mas a voz não sai. Ouço o som dos passos mais perto, mais perto.
Agora já não enxergo direito. O lábio fino pretende um beijo. Os braços abertos se armam para um abraço.
 
Parabéns! Muita felicid…. Desmaio antes de o lábio fino terminar a sílaba.
 
SOCORRO. SOCORRO
 
— Mãe, o que foi? Acorda, mãe? Acorda! Por que você está gritando? Sonho ruim?
 
Desperto e vejo meu filho em pânico perto da minha cama, eu meu quarto. Estou inteira. Estava dormindo.
 
Parabéns, hoje é o seu aniversário.
 
Apago outra vez.

Porque hoje é sábado, bom dia!

Porque hoje é sábado, escorreguei da cama mais tarde. Ganhei uma hora de sono. Quando levantei, meu companheiro de caminhadas, Zapata, já me olhava de soslaio ao pé da cama. Sim, estava atrasada e preguiçosa. Meio triste, um tanto desenxabida porque odeio a palavra deprimida. Minha mãe sempre diz que um banho cura tudo. Obedeci à memória maternal e para o chuveiro fui. Ajudou sim. Levantou o ânimo e limpou a craca da véspera, mais um dia difícil, mais um dia de resistência.

Com Zapa no comando, fui às ruas vazias, porque, afinal, hoje é sábado. Mas hoje não era um sábado qualquer, descobri há pouco. Hoje é sábado e também o dia do poeta. Hoje é dia de Vinicius, Bandeira, Drummond, Adélia, Ana, Cabral, Chico, Caetano, Gil, Hilda, Cartola, Noel e vou parar por aqui para não dar briga. Estou cheia de brigas.

Porque hoje é sábado, dia do poeta e porque estou desenxabida (como tenho andado atualmente e ultimamente) resolvi ser auto-indulgente. Aceitei minha obsolescência e fui à banca de revistas ver o que podia alegrar meus olhos e minha alma. Não vou comentar alguns horrores que vi, nem outros que comprei por curiosidade mórbida. Vou falar do que me fez bem. Me alegrou encontrar uma Vida Simples, de capa amarela, falando de reinvenção. A revista é, alegria geral, um exercício mensal de reinvenção e resistência. Antes de ser fechada pelos antigos donos do finado império editorial, foi comprada pelos jornalistas que a faziam. Gente bonita, elegante e sincera que acredita no bem que a marca faz aos leitores. Viva!! Desejo uma vida longa e feliz ao projeto, que sempre trouxe  ar fresco, calor e aconchego para almas com e sem relevo.

Quando já estava dando adeus ao jornaleiro, um homem heróico e resistente como a galera de Vida Simples, vi no cantinho da banca uma coleção de dvds da Folha. Grandes diretores no cinema, chama-se. Como hoje é sábado e eu estava com tempo, resolvi fuçar. Não é que eu encontro ali o clássico dos clássicos do neo-realismo italiano, Ladrões de Bicicleta? Quando eu era jovem – e isso faz muito tempo – assistir Ladrões de Bicicleta era uma das senhas para ganhar respeito e ouvidos no mundo dos adultos. Por isso, quando consegui ver o filme para poder entrar na conversa, senti uma felicidade imensa. Hoje à noite, vou rever a fita (sim, minha mãe até hoje chama filme de fita) sozinha em casa e depois conto quais memórias revistei.

Porque hoje é sábado e dia do poeta, a alegria entrou na minha casa por meio da página C6 do Caderno 2 do Estadão. Não gosto do Estadão. Prefiro a Folha, que assino no digital. Comprei o Estadão porque raramente o leio, mas hoje é sábado e pelo jeito meu dia de cura. O nó que estava amarrando a minha garganta, me fazendo tossir e ficar sem voz (sim, estou sendo literal) foi se soltando graças ao texto do Marcelo Rubens Paiva. Foi ele quem me lembrou que dia 20 de outubro é dia do poeta. Foi ele quem me disse que hoje é dia de poesia e samba. Foi ele quem me lembrou, por meio de seu texto lindo, que apesar de você amanhã será sempre um novo dia. E quando tudo ficar muito ruim e eu deveras desenxabida, posso abrir Manuel e com ele partir para Passárgada. Ou, se não for a hora de sair de fininho, posso recorrer  ao fone de ouvido para escutar o que Chico e sua galera têm a me dizer.

 

 

Corre vem ver o céu

Relógio, celular e sorvete de chocolate

Captura de Tela 2018-09-27 às 09.30.01.pngMeu relógio quebrou. Relógio de pulso, para o qual olho o dia todo, como um vício . É pesadão e caro. H Stern. Ganhei de presente de aniversário faz anos. Sem ele piro. Almocei e fui procurar um médico. Brincadeira. Fui atrás de um relojoeiro, daqueles antigos, que usam pinça e outras ferramentas exóticas.
Evitei o shopping Iguatemi, porque a grana está curta. Caminhando na avenida Faria Lima entrei em todas as galerias procurando uma lojinha de consertadores de Cuco. Nada. Onde eles habitavam, agora vivem reparadores de celular . Os jovens não usam relógio. Quando precisam ver a hora, consultam o smartphone, me explicou o moço que conserta Sansung, Apple, Motorola e Ching-lingue.
Sai da galeria. Tipo desolada. Tipo saudosa. Considerando o que fazer com minha crescente obsolescência. Atravessei a rua e cheguei à uma banca de revistas que um dia, há quatro anos, cogitei comprar. Mais saudosa ainda, a surpresa. Na lateral da banca brilhava uma plaquinha discreta onde estava escrito: conserta-se relógios. Revista, relógio, obsolescência, saudade. Tudo pertence ao mesmo conjunto.

Eba. Vou consertar, enfim, meu relógio. Seu Jorge foi rápido. Com habilidade de mestre, abriu meu patacão, que apesar de old fashion também funciona a pilha. Olhou, limpou, disse que o material dele era original. Em menos de três minutos, meu relógio contava segundos novamente. Paguei e não resisti à pergunta: “o senhor ainda vende revista ?”.
“Pouco”, ele respondeu. “Elas estão acabando, feito os relógios. Os jovens preferem o celular”. Confirmei com a cabeça e parti. Fui tomar sorvete para aplacar a saudade  e aceitar minha inexorável obsolescência com lambidas de chocolate.

Tudo novo, tudo de novo

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Hoje, quatro anos depois, com a primavera chegando de novo, o FB me lembrou deste post. Ele foi o começo de um projeto que gerou livro, palestras, negócios, novos amigos e mais de 300 textos. A memória relida, relembrada e revivida me fez pensar. Matutando no almoço, sozinha, no Empório São Jorge, decidi que era hora de mudar, tudo, tudo novo, de novo.

A vida sem crachá segue. Acho que não tenho volta nesta encarnação. O interesse sobre trabalho, emprego, empreendedorismo, longevidade também segue, mas definitivamente não é mais meu foco principal. Não quis virar consultora. Não quis virar conselheira. Não quis virar coach. Palestrante até posso seguir sendo, do jeito que sou, sem cobrar, sem ganhar dinheiro, apenas falando para agradecer o que mereci de bom. Apenas falando para quem quiser me ouvir.

Sigo cada vez mais dona de pousada. Sigo cada vez mais garimpeira de arte popular. Sigo cada vez mais marqueteira, operária, trabalhadora dos meus pequenos e próprios negócios. Estou ficando cada vez mais analfabeta digital. Estou perdendo a visão sobre os grandes negócios. Vou perdendo a memória sobre aquilo que sabia fazer e que era tão bacana.

Aquele ser e aquele aquário do texto que inspirou esse blog estão sumindo, estão se apagando como um papel molhado de chuva. Estão derretendo como a pintura do cabelo do personagem Gustave Aschenbach, o maestro, do filme Morte em Veneza. Parece triste. Não é. É lindo, é libertador. Por isso, inclusive, recorro a cena, uma das mais belas e poéticas do cinema do século XX. Por que é libertador? Porque, enfim, sei o que não quero fazer. Aprendi a dizer não, obrigada. Aprendi a fazer escolhas boas para mim.

Dito e feito. A partir de hoje, a vida sem crachá terá um espectro ainda mais doidivana. Tipo compartilhar a receita do pão de forma que tentei fazer e não deu muito certo porque cresceu pouco e faltou sal. Sem querer, sigo sendo coerente. Nasci aqui mais um plano B

 

Mágoa sem acento prosódico

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Ontem fui dormir e a mágoa veio falar comigo. Veio no formato de mácula. Uma nódoa escura, tipo graxa com areia e sangue pisado. Tava magoadinha, coitada. Cheia de razão.

Mas não dei muita bola para ela era não.

Mágoa é uma desgrama para o coração, para o fígado, para o pâncreas e para o pulmão.

Amargura, amargura, amargura. Amargura tanto, que tudo fica com gosto de fel misturado com angustura, aquele bitter que antigamente usava-se para fazer coquetel.

A mágoa com cara de nódoa escura, contrariada, partiu. Voltou de madrugada. Pegou carona em uma crise de falta de ar.

O ar era tão pouco que nem ouvi o que ela sibilava

Provavelmente era: “tá vendo a sua tristeza”.

Dei de ombros e encontrei a bombinha salvadora.

Puf, puf, puf, puf, puf

O ar voltou e a mágoa correu. A asma dormiu.

Não demorou muito e o despertador tocou. Lembrei do encontro com a danada na madrugada. Tomei café pensando na mágoa. Caminhei pensando na mágoa. Pedalei pensando na mágoa. Qual é o plano B para mágoa? Não achei. Na dúvida, decidi escrever sobre ela. Fazê-la de sentimento palavra. Funcionou.

A mágoa amarrada na frase, sílaba fica.

Sílaba tônica. Sílaba átona. Sem acento prosódico.

Só sílaba. Bem fraquinha. Tadinha.