Benção

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A praia estava quase vazia no final de tarde. Nem quente nem frio. O sol morno como a água. A luz deslumbrante. A caminhada tinha sido despretensiosa. Era apenas para ajudar a descer a moqueca de peixe e camarão. O dendê sempre pesa.

Na frente iam o filho e duas amigas. Ela ficou para trás com o menino, João. Não, não era o mesmo das garrafas de água. Esse era paulista. Filho de uma hóspede. A conversa era sobre o futuro. Como seria o Pirui daqui a 120 anos. 2029, quando João teria 129. Ela escapou da conversa quando o menino correu para pular uma onda. Foi por um segundo, tempo suficiente para ela sentir e entender o significado da palavra benção.

Aquilo tudo, que incluía o jogo das nuvens refletidas no chão molhado de areia eram benção. Com ou sem mérito, não importa. Era benção. E ela entendeu que era dela, que podia se apropriar daquele sentimento legítimo de satisfação, calma, prazer, acolhimento, amplitude, infinitude, pequeneza, simplicidade, riqueza e pobreza. Era tudo dela. Porque, enfim, ela entendia. Porque, enfim, sentia.  Porque, enfim, bastava.

O menino seguiu brincando com as ondas. Ela seguiu caminhando.

 

Samba da Benção, por Vinícius de Moraes

 

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

 

 

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Cinco anos

No dia 20 de dezembro de 2012, a pousada A Capela abriu seu portão elétrico, pesado, de madeira, pela primeira vez para receber hóspedes. Eram 20 pessoas. Ocuparam todos os oito apartamentos que tínhamos à época. Chegaram ao Pirui, praia linda da mítica Arembepe, trazidos pelo empresário baiano Xuxa, que fora contratado para produzir o evento de lançamento da pedra fundamental da planta da Jac Motors em Camaçari. Não vi nem conheci ninguém. Foi Nil Pereira, minha sócia, quem atendeu os primeiros clientes. Começou com pé direito, fazendo tudo com sua costumeira e famosa eficiência.

A Jac nunca abriu suas portas por aqui. Mudou de ideia e de Estado. Nós, felizmente, nunca mais fechamos as nossas portas. O portão pesado de madeira abre e fecha o dia todo. Às vezes, com tanta frequência que, o coitado, cansa e pifa.

São cinco anos e 1820 dias, totalizando milhares de diárias. Hoje são 17 apartamentos, que hospedaram clientes em mais de 80 casamentos realizados na frente da capela ou do mar. São mais de cinco dúzias de festas de aniversários, que fizeram com que o sentimento de alegria e prazer sempre estivesse entre novos.

Melhor do que as festas foram os novos e profundos amigos, feitos em meio à conversas na praia, no bar e no restaurante. Em cinco anos, colecionamos e vivemos histórias incríveis, incluso nelas meia dúzia de perrengues sérios, muito, muito aprendizado e um absurdo prazer solidificado na certeza de que nascemos para fazer isso. Servir é o meu maior talento.

Há cinco anos, eu e Nil éramos profissionais felizes e realizadas. Eu, em particular, não era capaz de imaginar, prever, supor, inventar o futuro que o destino me ofereceu. Não era capaz avaliar o tamanho da mudança de alma e de vida que a curva da vida me proporcionaria.

Há cinco anos, no entanto, tinha certeza de que o projeto Pousada A Capela tinha princípios e metas muito claros. Este ano, fazendo o nosso planejamento estratégico com o Sebrae, viajei no tempo para frente e para trás ao escrever:

MISSÃO: Hospedar, receber e servir com qualidade, eficiência e pessoalidade e aconchego, fazendo com que o nosso hospede sinta-se como se estivesse em casa porem cercado de mimos e pequenas  mordomias.

VISÃO: Conquistar um numero sustentável de hospedes fieis que  para manter uma taxa de ocupação estável que nos garanta um faturamento necessário para garantir a qualidade do nossos serviço  e proporcionar uma rentabilidade estável. 

VALORES: gentileza, hospitalidade, generosidade, eficiência e compromisso com a realização com sonho de férias do nosso hóspede

Parece conversa para boi dormir, eu sei. Mas não é. É tudo verdade. Só a verdade, nua e crua, explica o que aconteceu conosco. Uma pousadinha simples e despretenciosa, em uma praia fora do circuito, com fama de hiponga e popular, atrair tanta gente legal e bacana sem qualquer megainvestimento de marketing? De onde? Como? Por que?

Foi assim desde nosso primeiro Réveillon, recheado de amigos queridos do peito e de amigos de amigos vindos do circuito Trancoso/Copacabana Palace. Foi assim com a chegada do norte-americano Johannes, que pediu um nono apartamento para uma estadia de cinco meses. Não, ainda não estávamos no Booking. Foi o SEO bem feito e a sorte que colocou nosso querido gringo frente ao link pousadaacapela.com.br.

Foi a oportunidade que nos colocou frente à possibilidade de realizar casamentos e fazer parte da história de amor de uma centena de casais. Sim, a casa tinha uma capela feito pelo senhor Osório para mostrar seu amor por dona Lúcia — sim, o nosso Taj Mahal. Percebemos que era possível celebrar depois do pedido de empréstimo da Vanessa e do Jean. A celebração foi linda e a pousada ainda nem pronta estava. Depois foi a que pediu para casar sua sobrinha aqui. Um viu, outro contou, as fotos rodaram e chegaram mais um, mais outro e temos casamentos na agenda até 2019, garantindo vida longa e estabilidade para o nosso negócio. O dinheiro é fundamental. Mais importante para o conjunto da obra, é ter ciência que celebramos o amor e mobilizamos famílias e sentimentos. Temos muita gratidão por isso. Temos muita responsabilidade também.

No verão, há cinco anos, chegaram também as primeiras crianças. Os filhos da Dani Folonni foram nossas cobaias. Gostaram e, por força do trabalho e da generosidade da mãe, a Dani, que falou de nossa pousada em seu poderoso site itmae, abriram uma portaria de brincadeiras, jogos e corre-corres. Somos, modéstia a parte, craques em bebês e criançada.

Todos os dias, lembro do João, ainda trôpego, balbuciando com suas cinco sílabas o pedido para eu ligar o ventilador. Assim como não consigo apagar da memória o lindo encontro do jovem casal paulistano com a médium mineira. Juntos, dentro de uma poça de água do mar, nas piscinas aqui na frente, acalmar a filhota pequena, que chorava intermitentemente. Como esquecer, então, do sorriso de felicidade do casal jovem, pai de dois filhos pequenos e terríveis, que experimentaram aqui, depois de quase quatro anos de casamento, o prazer de bater papo, beliscar e bebericar do jeito que os adultos fazem.

Enquanto escrevo revejo minha missão. O que publiquei acima não está errado. A síntese, no entanto,  é mais clara e bem simples. Gosto de fazer os outros felizes. Como?

Com singelezas. Tipo uma cama gostosa forrada com lençol limpo. Um enfeite novo na estante branca. Um prato de comida quente e bom. Um travesseiro adequado ao pescoço.  Com o empréstimo do meu buggy para levar a garotada até o projeto Tamar e aldeia hippie. Um presente para aquele amigo especial. Um papo furado no fim de tarde. Com um brinde com prosecco honesto, quando a luz acabava e ainda não tínhamos gerador. Com pequenos mimos e agrados. Com um pedido de desculpas quando pisamos na bola. Com um desejo de bom dia vindo do coração. Com uma oração para Santa Clara para fazer sol no feriado e para não chover durante o casamento. Com um bom dia e uma oferta de ajuda.

São coisas miúdas e bobas. Várias delas não são mais do que a minha obrigação. Mas cinco anos depois sei que fazem a diferença. Na minha vida principalmente. Obrigada a todos que fazem parte desses cinco anos. Que venham mais cinco.

 

Aprendendo a viver (com gerúndio)

 

Não quero dar nem fazer  inveja. Menos ainda provocar raiva ou ciúme. A proposta do post é apenas contar uma ideia. Nova. Simples. E por isso, passível de cópia, adaptação e prática.

Somos um pequeno coletivo de pessoas de lugares diversos, interesses diversos, formações diversas que se encontraram e se conheceram em Arembepe, Bahia. Há pouco mais de um ano, nos encontramos quase que semanalmente para resolver questões relacionadas ao vilarejo, à aldeia hippie e à nossa diminuta associação de comerciantes e prestadores de serviço. Somos poucos, somos ativos.

O pequeno coletivo gerou uma pequena célula de meia dúzia de almas, que têm uma identidade mais íntima e profunda para além da geografia e da paixão por Arembepe. Temos idade, gostos, comportamentos, hábitos e sonhos semelhantes. Somos uma galera.  Nos falamos com mais intensidade por WhatsApp. Nos ajudamos com maior  empatia e carinho. Nos reunimos. Nos divertimos. Vamos aos mesmos shows e restaurantes. Falamos a mesma língua.

Ficamos amigos. Somos amigos.

QUARTA FELIZ

Nesta semana, por força do nosso trabalho, ficamos ainda mais juntos e unidos. A convivência é boa porque produz ideias novas. Na terça, na volta de uma reunião do  Conselho de Turismo, criamos a Quarta Feliz. A ideia é um combo de gente que se junta para nada. Isso mesmo. Não temos pauta. A reunião é somente para  juntar e depois de junto,  jogar conversa fora, beber, comer e viver. Nem luxo, nem lixo. A motivação é ter vontade e amor.

Enfatizo, não é farra nem putaria. Não tem bebedeira nem comilança.Não tem interesses outros. É um encontro singelo e gostoso, na justa medida. São pessoas interessantes e trabalhadoras, que no dia seguinte acordam cedo — e no grupo ninguém mais é menino para aguentar a rebordosa.

Foi lindo ir para cama, leve e feliz. Em paz com a vida, com os dramas e com os problemas que, claro, todos temos. Não somos ricos. Nem lindos. Nem poderosos. Nem vivemos acima da prateleira.

Quinta de gazeta

Essa mesma turma de bons viventes em fração ainda mais diminuta, instituiu hoje novo episódio/experiência. Roubamos do amigo João a boa prática de ficar de folga na quinta, já que ele tem restaurante e trabalha todos os sábados e domingos. Nasceu então a quinta de gazeta. Sim, um dia para vestir aquele velho calção de banho e fazer de conta que as 24 horas serão apenas para vadiar. Mentira as 24 horas, mas juro que os 60 minutos que passei no rio tomando banho e os 60 minutos que gastei para almoçar na barraca do Roque, com meus amigos, valeram muitos meses de vida.

É bom aprender a viver aos 20, 30, 40 e 52 anos. É bom fazer novos amigos sempre. É bom gostar de gente e de todas as estranhas e esquisitas diferenças que o homo sapiens sapiens tem. Não paga conta. Não acaba com os problemas. Não extingue as dores nem as mágoas, mas deixa a gente feliz, feliz. E isso é bom, muito, muito bom.

 

Preguiça

Hoje acordei com uma coceirinha no dedão do pé. Leve. Gostosa. Daquelas que prendem a gente. Hoje acordei com uma vontade danada de dormir até acordar. Vontade de jogar o celular pela janela quando o alarme começou a apitar.

Hoje senti um desejo absurdo de ligar o foda-se e ficar. Ficar na cama abraçada no cachorro. Ficar em casa imaginando o cheiro do café fresquinho, porque nem deu vontade de levantar para fazê-lo.

Hoje eu só queria ficar pela casa, de camiseta, calcinhas e chinelos, ouvindo Chico tocar violão.

Hoje eu queria saber aplicar mentiras cabeludas. Queria saber dizer não. Queria ligar de novo o foda-se para perder o avião.

Hoje eu queria que fosse ontem e anteontem porque estava bom demais e ainda dava tempo de cancelar tudo e começar de novo sem pressa nem compromisso.

Só hoje. Só hoje queria poder me entregar ao amor da preguiça. Que delícia.

Não mata baratas mas ajuda a combater ataques de pânico

Ataque de pânico I

Viver do plano B é tão bom que pode acontecer o seguinte: está tudo andando bem, os clientes felizes, a casa cheia, os funcionários produzindo bem, satisfeitos, as contas em dia, os pagamentos feitos, o pró-labore pingando… Daí, você que sempre viveu na base do perrengue, da pressão, da meta, do sufoco, olha para um lado, outra para o outro, e pensa: “meu Deus, está tão bom. Está tão bem, que dá até medo. Será que estou errando em alguma coisa?”.

Vivia tendo pensamentos assim.

Quando eles chegavam, sentia frio na barriga. A espinha gelava. O coração começa a batucar. Tremia. Incomodava. Então, dava um tranco na minha cabeça e repetia em voz alta na frente do espelho: “deixa de ser idiota, mulher. Você trabalha para caralho, está tudo bem mesmo. Parabéns. Você merece. Seja feliz.”

Funcionava, mas non troppo. A sensação de que a qualquer momento eu teria de descer a ladeira rolando era permanente. Sempre a dúvida, vai dar certo?

Ataque de pânico II

Enquanto escrevo, leio vários livros ao mesmo tempo. Um deles é A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown, um dos quatro best-sellers que ela escreveu. Qual foi a minha surpresa em descobrir que a sensação de alegria precedida do mau presságio não é uma doideira minha, mas um comportamento coletivo utilizado como forma de escudo contra a vulnerabilidade.

Não entendeu nada? Calma, calma. É complexo mesmo.

Antes deixa eu apresentar a Brenè Brown.  Ela é professora e pesquisadora da Universidade de Houston, Texas, nos Estados Unidos e tem uma cadeira na Fundação Huffington de Trabalho Social. Nos últimos 16 anos, Brenè se aprofundou no estudo de temas como coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia. Ela se tornou uma das cinco figuras mais vistas no TED no mundo com a apresentação O poder da vulnerabilidade (segue o link The Power of Vulnerability ).

Brenè é craque. Brenè explica o seguinte: sentimos esses ataques de pânico porque vivemos em uma sociedade capitalista baseada na cultura da escassez. Parece que nunca temos o suficiente de comida, roupa, amor, sucesso, felicidade, tempo, viagem, amigos, likes… A intenção do sistema é essa mesmo. Nunca nos sentirmos seguros ou certos o bastante para trabalharmos e gastarmos mais e mais. O sentimento produzido por essa roda viva é a alegria sempre parecer uma farsa.

 

“Nós acordamos pela manhã e pensamos: “O trabalho vai bem, todos na família estão com saúde, nenhuma grande crise está acontecendo, a casa ainda está de pé, eu estou me sentindo bem. Que droga. Isso é ruim! Muito ruim. Algum desastre deve estar a espreita, só esperando para acontecer.” 

Ela, como eu, considerava a sua permanente preparação para um desastre como um segredo, um truque que a tornava (me tornava) superior e infalível. Estava convencida também de que era a única no mundo que contemplava os filhos enquanto dormiam e que, no momento seguinte da onda de amor, imaginava algo terrível acontecendo com eles. Por que fazemos isso?

Brown responde: “Sacrificamos a alegria para evitar a dor”.

Qual dor? “Uma vez que fazemos a ligação entre vulnerabilidade e alegria, a resposta é bastante direta: estamos tentando vencer a vulnerabilidade à força.

Não queremos ser surpreendidos pela dor, por isso, masoquistas, enxotamos a alegria e fazemos ensaios macabros de fundo do poço como uma defesa contra a decepção. Eu sempre fui craque nisso. Pensei tantos absurdos que tenho vergonha de reproduzir.

Como escapar? Brené Brown descobriu que existe um vínculo forte entre alegria e gratidão. O processo é o seguinte:

– Escassez e o medo levam a alegria como mau presságio.

– Tememos que a felicidade dure pouco, que não seja suficiente ou que a tristeza que vem depois seja muito intensa.

– Aprendemos que se entregar à alegria é igual a se preparar para a decepção e a tragédia. Afinal, não merecemos ser alegres se somos incapazes e imperfeitos.

– Quem somos nós para sermos dignos de alegria com tantas guerras e crianças famintas?

Como escapar desse looping de fundo do poço?

Ela garante que o antídoto é simples. Se o oposto da escassez é entender que temos o bastante, então, praticar a gratidão é a forma de reconhecer que há o bastante e que nós somos o bastante.

Praticar a gratidão é a saída para aceitar a alegria e o prazer.

Tipo assim: “obrigada Senhor. Trabalhei como cão no final de semana e merece essa folga hoje, segunda-feira”.

Praticar a gratidão é o caminho para se livrar da culpa.

Tipo assim também: “obrigada Senhor por esse jantar delicioso, no restaurante que adoro, na companhia do meu filho, que passou de ano e de escola e como eu merece comemorar. Amanhã voltamos à rotina.”

Praticar a gratidão é o jeito de eliminar o desejo de entorpecimento que anestesia a dor, que vem dos sentimentos de inadequação e inferioridade.

Tipo assim: enfrentar o medo da dor do fracasso, da vergonha, da vulnerabilidade e aceitar o prazer, fulgaz mas delicioso, do aqui e do agora.

Tenho praticado todos os dias e está funcionando. Como estou fazendo isso? É bem simples. Digo mais obrigada do que antes. Tenho tentado ser mais gentil do que antes. Tenho mostrado mais carinho e mais amor para quem convive comigo. Presto atenção em pequenos detalhes. Presto atenção e valorizo pequenos instantes de prazer. Agradeço em voz alta Deus (porque acredito Nele) esses momentos. Agradeço em volta alta o destino (porque acredito nele também) esses momentos. Parece papo de doido, eu sei, mas é sensacional olhar para o céu (fiz isso anteontem na Faria Lima, em São Paulo) e dizer “obrigada Senhor por essa tarde em que deu tudo certo.”

 

Passagem

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— Oi, bom dia, tudo bem?

— Bom dia. Está tudo bem. Tudo ótimo. Hoje é a formatura do meu filho.

Hoje, 16 de novembro, passei o dia repetindo essa frase. Contei para o porteiro, para o padeiro, para a minha inquilina, para todos os amigos, para a vendedora da loja de bíquinis.

Ontem, antes de embarcar para São Paulo para vir à formatura do meu Chico, contei para todos os hóspedes. Para os amigos de Arembepe. Para a vendedora do mercado. Para a dona do hortifruti. Para Almir, vendedor da Ninoca, para Rose agente da quilombola da Cordoaria, para os meus amigos dos grupos de WhatsApp. Agora, não me cabendo em mim de tanta emoção, catei o computador para escrever . Quem sabe se depois de colocar em palavras, eu me contenha. Eu me estabilize. Eu me aprume.

Por que tudo isso, afinal ele, Chico, só está se formando no nono ano? Por que tanto exagero se ainda faltam o ensino médio, a faculdade, o mestrado…?

Porque sim, é a primeira resposta.

Porque estou feliz e emocionada é a segunda resposta.

Porque hoje ele faz uma importante passagem é a terceira resposta, mas racional, objetiva e igualmente emocionada.

Estou fazendo essa onda toda porque  acho que a entrada no Ensino Médio, colegial do meu tempo, marca a entrada definitiva na adolescência e na juventude. A infância oficialmente acaba. É uma passagem. Um caminho sem volta para uma trilha que entendo linda, divertida, criativa e libertadora.

Meu pequeno Chico fica na memória e na fotografia acima. Hoje, ele deixa de ser menino grande para se tornar um jovem homem. Um adulto aprendiz. Alguém capaz de cuidar de si e dos outros. Alguém apto a criar e a produzir. Alguém que pode até procriar (não, não, por favor, ainda não, é muito cedo). Alguém apto para ser senhor de si e cidadão do mundo.

Hoje, na hora do almoço com os avós na cabeceira, lembramos do primeiro dia de aula. Da primeira escola que não deu certo. Da segunda, Grão de Chão, que o abrigou tão carinhosamente. Lembramos dos professores e professoras. Lembramos das festas. Lembramos dos passeios. Lembramos da rotina do início da vida escolar, quando para acostumá-lo à distância da casa, eu fazia um longo passeio antes de deixá-lo na escola. Íamos ao parque da Água Branca. Dávamos comida aos cavalos. Brincávamos com as tartarugas. Víamos o pavão e as abelhas. Feliz, percebi que ele se lembrava de tudo.  E sabia que era mentira quando diziam que eu ficava o tempo todo do lado de fora no café esperando a aula acabar. “Eu olhava pela fresta e via que você não estava lá, já tinha ido trabalhar”, comentou Chico, hoje, orgulhoso.

Comecei a escrever esse texto à tarde, antes da cerimônia da formatura. Parei para tomar banho e ir. Ainda bem. O ponto final não podia acontecer antes da emoção real, concreta, verdadeira.

Foi lindo ver Chico grande discursando em homenagem a uma professora que irá se aposentar. Foi bacana vê-lo e sabê-lo querido pelos professores e colegas. Foi quente vê-lo lindo e estiloso de terno azul tocando “eu fico assim sem você”.  O que valeu a vida, a minha e a dele, foi vê-lo descer do palco, com uma rosa nas mãos. Sem titubear entre a mãe e a avó, com um sorriso especial nos lábios, ele entregou a flor para Maria, a Mamá, que junto comigo o cuida e o cria. A Mamá que o nina e o alimenta desde o dia em que saímos da maternidade, há quinze anos. A Mamá que generosamente dividiu seu amor entre Luciano e Cristiano, filhos dela, e Chico, filho nosso.

Sim, a passagem está feita. Chico aprendeu matemática, português, desenho, inglês e literatura. Chico aprendeu a fazer amigos. Chico aprendeu a respeitar os mestres. Chico tem conhecimento. Chico tem sabedoria. Chico é amor.

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Chico, vovó e Mamá: muito amor

 

Amor intransitivo

Eu amo

Tu amas

Ele ama

Nós amamos

Vós amais

Eles amam

Amar. Tipo de verbo: regular. Transitividade: transitivo direto, intransitivo e pronominal. Gerúndio: amando. Particípio passado: amado. Infinitivo: amar.

Ah meu Deus, como ela odiava gramática. Na verdade, ela odiava o mundo cheio de regras, ordens e arrumações. A gramática era a regra, a ordem e a arrumação na forma mais chata. A gramática tentava conter a fala. Dominar a palavra. Restringir a conversa. Se meter no papo. Atrapalhar o fluxo. Reduzir o encanto. A gramática era um porre.

Ela odiava gramática na mesma proporção em que amava literatura. A literatura era, na verdade, sua cúmplice no desafio de aprender a ler e a escrever sem aprender as regras. Graças a literatura, ela aprendeu a escrever “de ouvido” para usar uma expressão dos virtuosos que tocam violão sem saber música. Regência? Concordância? Crase? Conjugação? Transitividade? Não, não sabia explicar, mas sabia o que era certo ou errado de tanto ler e repetir. Algumas coisas, é verdade, escaparam. Ela até hoje tem vergonha quando lembra do seguinte diálogo:

— Por que você escreve obrigado e não obrigada?

Silêncio

Silêncio

Silêncio

A resposta foi safa. “É brincadeira. Escrevo obrigado por causa do Fábio Júnior, que diz “obrigadu”. Mas às vezes o corretor corrige, o dedo escapa e sai obrigado.

— Ah, que engraçado.

Findo o dialógo, realizado na era pré-google, ela correu para os livros e descobriu que mulheres falavam “obrigada” e não “obrigado” como ela escrevia sempre no final das mensagens.

A história do amar verbo intransitivo segue sendo, portanto, um mistério, já que ela leu e amou o livro do Mário de Andrade mas ainda não conseguiu entender porque o verbo amar pode ser transitivo direto, intransitivo e pronominal. Quer dizer, ela até entendeu porque já amou muito e esse sentimento é mesmo dúbio, estranho, esquisito, incontrolável, indomável e avesso às regras. Por isso, talvez, a gramática tenha sido assim tão ampla e aberta com o verbo.

Afinal, dizem, que verbos transitivos são verbos que, tendo sentido incompleto, necessitam de um complemento verbal para completar o seu sentido. Amar, portanto, necessita de um objeto direto ou indireto. A gente, em geral, ama alguém ou alguma coisa.

É?

Amar a si mesmo é amar alguma coisa? A dúvida era recente. Sim, há poucos dias, depois de ler um livro — sempre eles — ela descobriu que amava profundamente a si mesma. Era uma paixão louco, que ao ser descoberta a fez e a faz andar de sorriso nos lábios, rídicula, como as cartas de amor. A descoberta do amor próprio foi recente e chegou junto com o aniversário de 52. Não houve nenhum fato especial, nenhuma situação externa, apenas um entendimento claro e sútil. Ela amava a vida que tinha. Amava a pessoa que se tornara. Amava o jeito. Amava as escolhas. Amava-se. Não era um amor narciso. Ao contrário. Ela amava especialmente os defeitos, as fraquezas e a capacidade recém-adquirida de aceitar a própria vulnerabilidade. Ela amava o fracasso e o caminho cheio de buracos que havia escolhido. Amava também a solidão. Amava o desprendimento. Amava o passado e as roupas velhas.

Epa, epa, epa.

Ela deu um google e leu: “verbos intransitivos são verbos com significado completo, não sendo necessária a junção de objeto direto e objeto indireto para complementar o seu sentido. Referem-se a ações que iniciam e terminam no próprio sujeito, não transitando para um objeto.”

Ela se amava. Ponto. Ela era o sujeito. O verbo era o verbo. Ela se amava. Ela não precisava mais do amor nem da aprovação de ninguém. Ser amado era bom, era gostoso, era agradável, mas não era mais necessário. Ela, enfim, não precisava fazer ginástica olímpica nem malabarismo do Cirque de Soleil para ganhar sua dose diária de amor. Bastava existir. Bastava ser. Bastava amar. A si mesmo como aos outros.  Amor próprio, sem ciúmes nem conflito. Apenas amor. Intransitivo.

 

Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse a mais tempo
Não amava quem amei

Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou
Ele agora está mais firme
Do que quando começou

E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar (ah, o amor)
E se não tivesse o amor

No Abaeté tem uma lagoa escura
Arrodeada de areia branca

CAETANO VELOSO, IT S A LONG WAY