A longa viagem de volta

fullsizeoutput_40d3

Fica entre Trento e Trieste. Com o mapa da Itália na mãos, a única informação preservada pela memória da minha família tinha o tom de uma piada. (Fale lembrar que  na época que essa viagem começou a ser viajada, 1996, computador era 386, celular era um tijolaço e o inventor do waze nem nascido era).

Piada porque nos 300 e poucos quilômetros que separam Trento (nobre e antiga cidade dos Alpes italianos) de Trieste (importante por do Mar Adriático) havia centenas de minúsculos povoados e um catálogo telefônico de possibilidades. Para os nativos digitais, outra explicação: catálogo telefônico ou lista telefônica era onde nós procurávamos os telefones  das pessoas. Vinha por nome e sobrenome, em ordem alfabética. Por isso, era preciso ter sorte e fé.

Em setembro de 1997, sete anos depois do início da minha busca — encontrar a cidade que Francesco Tomas, meu bisavô paterno, havia deixado um século antes para começar vida nova no Brasil — foi impossível não frear no meio da estrada, cantando os pneus, quando a primeira placa indicando a localidade de Fiera de Primiero brilhou no para-brisa.

Eu estava a caminho da cidade de meus antepassados, o bisnonno Francesco, o bigodudo da foto acima, pai da minha avó Gina, mãe do meu pai, a linda garota de chapéu e laço branco do lado esquerdo da foto. Voltava para casa, finalmente.

Como eu cheguei lá? Fazendo reportagem, meu caro leitor. Procurei no consulado da Itália e nas listas telefônicas do norte do país, as cidades que possuíam moradores com o sobrenome Tomas, Thomaz, Thomas, Tomaz. Com os nomes delas e os CEPs em mãos, enviei dezenas de cartas para as prefeituras perguntando se lá constava a certidão de nascimento do meu bisavô.

Comunidade autônoma da região do Trentino Alto Adige, Fiera tem apenas 517 moradores fixos e meia dúzia de hotéis. Ela é a mais simpática entre as sete cidades do Vale di Primiero (xxxxx habitantes fixos, xx hotéis, xx pistas de esqui e dezenas de trilhas para caminhadas e escaladas num dos muitos recortes dos Montes Dolomitas, as belas montanhas que definem a porção italiana dos Alpes. Quase na fronteira com a Áustria, essa região até a primeira guerra mundial ora pertencia à Itália, ora era dominada pelo império Austro-Húngaro. Culturalmente ligada à região do Tirol, ainda tem placas na estrada e menus de restaurantes bilingues, em italiano e alemão.

Dirigindo pela estrada, me lembrei do dia em que a certidão de nascimento do meu bisavô, expedida pela Comune de Siror (uma espécie de cartório central), chegou à minha casa. O documento, obtido depois de escrever 60 cartas a prefeituras de cidades em cuja lista telefônica havia pelo menos um sobrenome Tinas, refazia um elo da História que parecia ter sido quebrado um século antes, no porto de Santos, em São Paulo, depois de um longa viagem de navio.

Francesco Tomas, um simpático grito de cabelos negros e olhos azuis, era o filho mais velho de Francesco Tomas e Anna Bancher. Nascido em 1878, não entendeu muito bem quando os pais lhe falaram sobre o projeto de deixar os animais, a horta, o cachorro e os brinquedos para seguirem na manhã seguinte, a pé, até a cidade de Feltre. Ele numa tinha ido tão longe até então. Mas sabia que eram 32 km por uma estrada de carro de boi. De lá, junto com os cinco irmãos – Simão, Antonio, Batista, Adriana e Ida – e os pais, tomariam um trem até o mar (que a família ainda não conhecia), depois um navio e finalmente desceriam num tal de Brasil. Daquela conversa curta, o menino compreendeu que o patriarca estava cansado de trabalhar duro, produzir pouco e que a inundação de 1885 havia arrasado com as economias da família.

Não seriam os últimos.  Muito menos seriam os primeiros a engrossar as estatísticas de um dos maiores fluxos imigratórios do planeta. Os primeiros 180 italianos chegaram ao nosso país em 1836 e a última leva aportou mais de um século depois, em 1947. Ao todo, mais de 1,5 milhão de filhos da Itália imigraram para cá. Todos queriam vir para a América – fosse ela qual fosse – mas os habitantes de Primiero acreditavam que eram convidados especiais do próprio Imperador Pedro II.

Essa informação – só viajaram porque alguém os convidou – era esclarecedora. Antes de seguir com essa história, preciso dizer que o imperador Dom Pedro II é meu pai duas vezes. Garantiu meus genes do lado de pai e de mãe. Depois conto como foi do lado materno.

O convite de Pedro II talvez explicasse o fato de Francesco Tomas (o filho) ter tentado apagar de sua história os anos vividos na margem do rio Cismone (de águas frias e esverdeadas), as missas em latim na igreja de estilo gótico (construída no início de 1400 graças ao enriquecimento de alguns fiéis com a extração de minérios) ou ainda as caminhadas até a base do Pico Sass Maior, de 2534 metros, cujas três pontas são o cartão postal do vale.

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.45.55

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.49.10

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.52.36

Com lábia de mercador e gentileza de diplomata, um enviado do Império brasileiro esteve em 1870 na região de Primeiro. Dizia que no Brasil uma única família podia ser dona de 100 acres de terra, um verdadeiro latifúndio em comparação com o pouco espaço disponível no local, razão principal da falta de comida à mesa de famílias numerosas. De cara, convenceu oito pessoas a companha-lo. Prometeu que no Novo Mundo havia fartura e que o imperador, filho de uma princesa austríaca, dona Maria Leopoldina Josefa Carolina, iria tratá-los quase que como irmãos de sangue. Era um exagero, mas borrifado de alguma verdade. A exemplo de seu pai, D. Pedro II via com bons olhos a chegada de imigrantes da Alemanha, Áustria e norte da Itália. Como ele, os europeus eram homens fortes, trabalhadores e de olhos azuis, que poderiam ajudar a aprimorar a raça brasileira (sim, eles eram eugênicos. :-().

Captura de Tela 2018-08-14 às 23.01.46

Os viajantes que toparam o desafio proposto pelo enviado imperial pouco sabiam sobre o país para onde partiam. Menos ainda imaginavam que aquele sujeito iria desaparecer assim que a embarcação chegasse a Santos e ele prestasse contas (e recebesse) por sua bem-sucedida empreitada.

“Num período de sete anos, entre 1870 e 1877, houve um êxodo de 1088 habitantes do distrito de Primiero para a América. Destes, 960 foram para a América do Sul e 128 para a do Norte”, descreveu Cesare Battisti, médico e autor do livreto Guida di Primiero, editado em 1912. Apesar das promessas exageradas de Pedro II, os imigrantes gostaram da nova terra e convocaram os parentes. “O vale ficou quase vazio entre 1877 e 1890. Os pais de família não tinham escolha.

“Quem ficava, passava fome. Quem partia, tinha, ao menos, a chance de dar de comer aos filhos.”, conta o montanhista e escritor Floriano Nicolao. Pesquisador, ele sabe quem partiu, quando, como e porquê, e contabiliza que, durante esse período de pico, 30% da população local tomou o rumo do Brasil.

Os destinos eram vários – do interior de São Paulo ao Nordeste. Numa de suas viagens ao país, Nicolao descobriu no arquivo público do Paraná a informação de compra, em agosto de 1878, da Fazenda Maria de Piraquara, onde se instalaram colonos vindos de Primeiro. A terra foi batizada de Santa Maria do Novo Tirol e reunia 59 famílias com 251 italianos. “Estive lá em 1978, numa festa para 100 anos da colônia”, relembra o pesquisador. Ele ficou especialmente impressionado com a importância da família Bettega.  “Há mais de 400 Bettega no Paraná. Mais do que todos os que restaram no Vale do Primiero”, diz. A febre da imigração era tão contagiante, que em várias cidades do norte da Itália, surgiram agências, algumas até ilegais, para tratar dos papéis e da viagem  dos imigrantes. Igualzinho ao que existe em Governador Valadares, Minas Gerais, para os mineiros que querem mudar para os Estados Unidos.

Cada família adotou uma postura ao decidir como seria sua relação com o velho e o novo país. Enviar um retrato da mulher e dos seis filhos foi a maneira encontrada por Giam Battista Loss, da cidade de Imerjo, também do Vale di Primiero em 1877, para exibir à parentada italiana como estava sua prole no Brasil. Houve quem voltou para visitar os primos, vender as terras ou assistir à mãe doente, em seus últimos dias. Mas outros, como Francesco Tomas, cortaram todos os laços ao cruzar o oceano.

Minha primeira parada, no Albergo Pavione, um hotelzinho de beira de estrada, em Imerjo di Primiero, foi uma surpresa. Temia pela reação do dono, Paolo Pavione, quando pronunciasse o sobrenome Tomas e contasse que estava ali procurando a origem de minha família. São comuns as histórias de rejeição sofridas por brasileiros que buscam as raízes na Itália – os parentes temem que o estrangeiro busque heranças dos ancestrais. Ao fita-lo, no entanto, fiquei tranquila. Ele tinha os mesmos olhos azuis de meu pai. Gentil, ficou feliz em escutar meu resumo e, antes que pudesse colocar um ponto final, já estava sendo apresentada a vários pretensos tios e primos. “Você é Tomas por parte de mãe ou pai? Sabe, meu irmão casou-se com uma Bancher, será que somos duas vezes parentes?, indagava-me uma tia de Ímer. Fiquei na dúvida se ela era mais parecida com a tia Vera ou com a tia Nena (ambas verdadeiras e então vivas). Ou se estava enxergando tudo embaralhado por causa da sensação inédita de ter encontrado o rumo de casa.

Ao seguir rastros do passado, descobri que aqueles que quiseram fazer a “Mérica” acabaram sendo todos um pouco parentes. Sobrenomes como Mott, Loss, Bettega e Piazza tornaram-se tão familiares quanto os Tomas que nunca vi. Na visita ao cemitério, passagem obrigatória para quem quer entender um pouco a genealogia da vida, esses personagens do século passado compartilham metros quadrados enfeitados por flores e têm seus caminhos cruzados por casamentos, sociedades e separações.

Nos últimos 100 anos, o Vale di Primiero mudou. A proximidade com as montanhas atraiu visitantes, que transformaram algumas localidades em estações de inverno. Transacqua, Tonadico e Fiera são as principais portas de entrada para o Parque Natural Paneveggio-Pale di San Martino di Castrozza. Por conta dessa nova vocação, fica ainda mais difícil voltar no tempo para recompor a imagem de Francesco caminhando pelas ruas de terra para seguir à escola. Depois de visitar igrejas, cruzar a antiga ponte do rio Cismone, posar para fotos e respirar fundo o ar seco e frio, que faz arder as narinas, achei que era o momento de ir embora.  Centro e trinta anos depois, refiz, de carro e avião, o caminho inverso do garoto Tomas. Não tinha um convite do imperador nem a promessa de fazer a América, mas podia dizer, finalmente, que sabia quem eu era.

 

 

,

 

 

 

Anúncios

todo dia qualquer

foto9

Todo dia é qualquer. Qualquer dia. Como hoje, ontem e amanhã. Todo dia é sempre igual. E tem um monte de gente que morre de medo dessa rotina, mesmo quando a rotina é ser nada igual. Medo bobo. Medo besta. É tão bom todo dia ser dia qualquer. Como hoje.

Fiz uma vida sem rotina mas com muitos dias todo dia qualquer. Hoje não sei se tenho rotina ou não. Mas adoro meus todos dias quaisquer. Hoje, por exemplo, foi um dia qualquer maravilhoso.

Fiquei e cuidei de quem amo. Fiquei e cuidei do que gosto. Trabalhei. Andei. Pedalei. Li. Escrevi. Comi. Andei. Lavei. Bebi. Comi. Limpei. Pendurei. Me vesti. Me despi. Ri. Chorei. Falei. Me abri. Meditei. Acordei. Escrevi. Sempre hoje.

Fui muito feliz, como sou em todos os dias quaisquer. Vida boa é assim. Bem qualquer. Bem todo dia. Bem hoje.

A notícia

Ganhei a vida escrevendo notícias. Por 30 anos, esse foi meu ganha pão e meu maior prazer. Há sete dias, aguardo uma notícia. Hoje, ela chegou. Por telefone. Com jeito e com carinho. Diferente da semana passada, quando ainda não havia empatia, simpatia, conhecimento, relacionamento e, porque não, afeto. O mesmo doutor que acreditava sem jeito e sem vocação me ligou para contar o que eu já sabia mas de modo algum queria saber.

A notícia com todas as letras pesa no estômago. Fico assim meio sem saber o que fazer. Levanto e lavo a louça. Lavar os pratos sujos da pia sempre foi um jeito honesto de procrastinar. A louça acaba e ataco a roupa suja. Coloco tudo na máquina e fico lá feito naja hipnotizada pelo movimento das peças no meio da água azulada. O barulho vira meu mantra e tento não pensar em nada. Branco, feito Omo, o sabão em pó que tenta limpar as roupas e a minha alma. Rodo, rodo e rodo.

Não quero pensar no amanhã. Não sei direito ainda como darei a notícia. Não sei direito ainda como lidar com a notícia e as suas consequências. Justo eu que sempre fui craque em planejamento e passo a passo. Justo eu que adoro fazer listas. Justo eu que resumo as coisas em tópicos: 1, 2, 3… Justo eu que vivo recomendando plano B para tudo.

O estômago segue dolorido. Não tenho vontade de comer nem de beber. Não tenho sono também. Estou boiando. Estou flutuando. Estou sem pé nem cabeça. A notícia é fato. Com prova e documentação. A notícia é verbo. E no início sempre é o verbo. Por isso é tão difícil calar essa voz, que fica sussurrando dentro da minha cabeça. Essa voz que não cala nunca e que fica propondo hipóteses e possibilidades. Voz que dá asas a medos, encrencas e factoides. Voz que não fala o que eu quero, nem silencia quando eu preciso falar.

Estou em silêncio e escrevo para não ouvir a voz.

A notícia ficará para amanhã. Com o sol e a esperança. No escuro, é proibido dar notícia ruim. Aprendi com minha mãe.

 

 

 

Referência

paineto

Meu pai sempre foi o mais alto. De todos. Se eu me perdia dele no supermercado, bastava olhar para cima que eu encontrava os cabelos loiros e os olhos azuis. Ele também era o mais forte. O mais sabido. O que resolvia tudo — menos as bobagens que ele fazia e as confusões nas quais ele se metia.

Ele sempre foi meu super herói, até aquele dia em que dormiu na pista. Eu bobeei, me perdi pela curiosidade e falta de medo. Fui, dancei, me ferrei e, automaticamente,  cresci rápido demais. Rápido. Muito rápido.  Tinha cara e jeito de criança, mas a alma, pobre alma, envelheceu no tapa. Não teve jeito. Perdi a inocência. Descobri a dor e a sinceridade da honesta mentira. Meu pai deixou de ser super herói não por falta de mérito mas porque adultos não gostam de delegar superpoderes.

Meu pai seguia sendo o mais alto. Isso, confesso aqui, me dava uma enorme tranquilidade. Acontecesse a merda que fosse, eu podia chama-lo. Podia pedir socorro. Podia pedir resgate. Perdão. Ajuda. Uma mão. Ele era maior do que eu. Ele sabia tudo e eu ainda estava aprendendo, apesar da minha permanente soberba. Mesmo quando discordava das ideias e opiniões dele, achava que ele podia me salvar se eu fizesse mesmo tudo errado.

Meu pai deixou de ser o mais alto já faz algum tempo. Primeiro, foi meu companheiro que ficou maior do que ele. Depois foi meu irmão, que apesar do prognóstico de ser baixinho para sempre, teve um estirão e passou ele fácil, fácil. Ai, ele começou a encolher. Diminuir os ombros. Reduzir a força do tórax. Encolher as pernas. Ele foi ficando pequeno, pequeno. Um dia, choquei, quando vi meu filho, Chico, do tamanho dele. Quem cresceu? Quem encolheu? E eu? Que tamanho tenho?

Neste domingo, quando nos juntamos, todos, para abraçar minha mãe e dar-lhe força, olhei para o meu pai. Ele estava do jeito dele, preocupado e com medo. Ele estava pequeno. Bem pequeno. Ainda bem que tinha João, o menor. O nosso mínimo. O Jojo, querido, que nos seus quatro anos, pimpão, ainda não alcançou um metro. Na foto acima, ele faz com que meu pai seja e continue sendo o mais alto, o maior, o grande, o PAI que todos temos de ter. Vou guardar essa imagem e essa referência no coração e na memória.

 

Doutor sem vocação

Boa noite.

Boa noite, doutor.

Cadê sua filha?

Saiu. Foi até a casa dela descansar.

É muito sério.

O que?, pergunta a interlocutora, com a testa franzida e o olho arregalado por trás dos óculos de lente anti-reflexo varilux. Ela tem 75 anos. Conheceu médicos para parir e tirar um Diu perdido no corpo. Olha no relógio. 23 horas. Será que é sonho?

O que é?

O que você tem?

O que eu tenho?

Intestino.

Todo mundo tem intestino.

Intestino. Vi algo no intestino.

Mas estou sangrando pela vagina.

Eu vi no intestino.

Pólipo?

Mais grave. Mais urgente.

O que?

silêncio

silêncio

Fiquei surda? Será que fiquei surda? Será que é pesadelo?

O doutor sai do quarto. É quase meia noite. A noite é escura. A noite é longa. O medo é gigante.

/Esse blog nasceu porque precisava narrar as minhas emoções. Esse blog segue sendo escrito porque preciso e gosto de contar minhas histórias. O momento é de forte emoção. Envolve mãe. Todo homem precisa de uma mãe, diz a canção. Toda mulher também. Depois conto o que há.  Por enquanto, só posso vomitar o que aconteceu.

 

Yèyé Omo Ejá retou comigo. Gostei

CAMERA

Véspera de São João. Véspera do inverno. O dia azul, azulzinho. A água do mar quente, quentinha. Eu com um novo sistema para preencher de fotos lindas. Na mochila trouxe, quase sem, querer a GoPro comprada em 2015 em um dos últimos impulsos consumistas. Por que não uma foto subaquática? Mostrar para os hóspedes que aqui na frente, bem debaixo dos nossos pés, tem um mundão colorido, divertido, animado e em constante movimento?

Faz tempo que não mergulhava. Faz tempo que não voltava às origens. Com a máscara nova, supermegapower, fui. A maré alta, forte, puxando. Fui. A água translúcida, melhor que na véspera, mostrando todos os peixes. Segui na onda. Deixei o corpo e a vida me levar. Clique, clique, clique. A peixarada parecia até os antigos personagens da CARAS, toda se mostrando. Fui clicando, clicando, clicando. Uma loucura. Uma festa. Uma alegria.

Nadando cheguei numa colônia de corais azuis. Êxtase. Peixes azuis na colônia de corais azuis. Desbunde. Fiquei tão excitada! Feliz feito a criança que sou. A onda veio por baixo. Sacudiu meu corpo. Bambeei. Bobeei. A câmera com a qual eu estava metralhando a peixarada pulou da minha mão, subiu, desceu, rodopiou e sumiu. Melhor, desapareceu. Desapareceu ali, na frente os meus olhos.

Yemanjá!!!! Devolve, por favor, minha câmera?

Yèyé Omo Ejá, por favor, cadê ela? Brinca, não…tem fotos lindas. Preciso delas. Tem a viagem com Chico por Minas. Tem o mergulho. Tem o peixe azul na colônia de corais azul…

Rodei, afundei, vasculhei. Uma, duas, dez, vinte vezes. Nada. Agulha no palheiro. Titanic no mar do Norte. GoPro nas piscinas do Pirui. Desolada, pedi ajuda aos amigos que comigo estavam no São João. Em caravana, fomos para Dandalunda implorar. Devolve a câmera. Troca por outra coisa. Por favor… Cantamos todos cânticos.

Iemanjá – só se vê mar
Iemanjá – só se vê mar

Mulher tá na praia, homem tá no mar
Mulher tá rezando pro homem voltar
Mané foi pra pesca pescar pra viver
Peixe bom pra comida
Peixe bom pra vender

Iemanjá – só se vê mar
Iemanjá – só se vê mar

Nada. Voltamos. Ficamos lá caminhando e cantando sobre os corais na maré seca. Tipo passeio na lua molhada.

fullsizeoutput_225

Canta, pede, olha, foca, procura, vasculha. Canta de novo. No final da busca, percebi que havia experimentado um jeito diferente de rezar e meditar. Foi tão bom que quase parei de pedir a câmera de volta…

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Dandalunda, Janaína
Marabô, Princesa de Aiocá
Inaê, Sereia, Mucunã
Maria, Dona Iemanjá

Onde ela vive?
Onde ela mora?
Nas águas
Na loca de pedra
Num palácio encantado
No fundo do mar

Mas não vou fazer isso, não. Juro que não é egoísmo, nem falta de desprendimento. A busca da câmera virou um motivo, um pretexto bom para, nos próximos 30 dias, descer todos os dias à praia para olhar, procurar, pensar, cantar, sorrir, caminhar, agradecer, pedir, rezar, meditar e sonhar.

Vale também como aprendizado do dia. O significado de perder e ganhar. Quando é bom e quando é ruim. Lembrar que é preciso sempre cuidar. Das coisas. De si. Do que queremos e do que gostamos. Lembrar que não dá para deixar as coisas à mercê da sorte ou do azar. Não amarrou a câmera? Perdeu, maré, mané. Não cuidou do que era precioso? Corre atrás para recuperar e aprende a não perder de novo. É assim. Todo dia, uma lição. Por isso, é tão bom. Yèyé Omo Ejá retou comigo. Ainda bem. Significa que gosta de mim. Obrigada, rainha. Odôiyá.

 

 

 

 

 

 

 

Veruska e a duna

Baiana na rede_1

A mensagem era curta e sincera.

“Fui lá antes de 1970. Era namorada do pai dos meus filhos. Dei uma guinada em minha mãe e escapamos para a Aldeia Hippie. Fizemos amor nas dunas, sob o luar.

Depois, já na década de 1970, livre do jugo materno e da prisão do marido, voltava lá, de vez em quando, com um parceiro. Íamos namorar e ficávamos naquela pousada das barracas. Esqueci o nome do dono. Era muito gente fina.”

O teor explícito e honesto da mensagem mexeu comigo. Poucos expõe com tanta simplicidade e transparência momentos tão intensos e íntimos. Confesso, fiquei curiosa e fui fuçar no FB quem era a Veruska. Não encontrei muita informação disponível, apenas o retrato de uma senhora de cabelos curtos e óculos escuros. Admirei dona Veruska. Invejei-a também. Noites de amor nas dunas não são para qualquer um.

Fiquei imaginando como ela se sentiu, 40 anos depois, revivendo aquelas memórias. Será que um arrepio de prazer acendeu a espinha dela? Será que sentiu saudades do pai do filho dela? Será que teve algum arrependimento? Desejou voltar lá com alguém?

Fiquei imaginando dona Veruska fuçando o álbum de fotografia em busca do namorado que a levou às dunas. Será que ela perdoou ou entendeu a caretice da mãe, que a impedia de ser feliz? E o parceiro? Quem seria? Um namorado? Um amante? Era casado? Era colega de trabalho? Será que fugiam da firma ao meio dia, inventando uma visita a um cliente em Feira de Santana e tomavam o rumo de Arembepe?

Pensei em mandar uma mensagem para dona Veruska. Propor uma entrevista. Ou apenas uma conversa franca. Desisti. Alimentar a dúvida, às vezes, é mais gostoso do que procurar saber. Vou imaginar muitas ousadias para dona Veruska. Ela e eu seremos mais felizes assim.