Hora de relógio

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A Bahia tem sotaque, gírias e expressões idiomáticas próprias. A que eu mais gosto é “hora de relógio”. Quando alguém diz ” vamos nos encontrar às 19, hora de relógio”, ela quer dizer que o compromisso é às 19 h, sem falta nem atraso. Óbvio para um britânico, suíço, alemão. Óbvio para mim que estou sempre adiantada. Estava. Até essa semana, quando decidi brincar com o tempo. Com o trânsito paulistano. Com a bondade da atendente da companhia aérea. Com a hora de relógio do embarque do avião.
A história é patética. Meu vexame absoluto é inesquecível. Me exponho porque o aprendizado é utilíssimo e porque para o leitor será engraçado, bizarro.
Na quinta-feira, 25, depois de uma reunião na editora Harper Collins, eu tinha todo o tempo do mundo até a hora do meu avião às 17h55, no aeroporto de Congonhas em São Paulo. O compromisso do era uma palestra na sexta-feira, em Curitiba. Meus anfitriões tiveram a gentileza de comprar o bilhete para um aeroporto perto de casa, para facilitar minha vida. Não mereci.
Fiquei em casa trabalhando. Estava tudo certo até ouvir o barulho da chave na porta. Era meu filho, Chico, que buscava suas tralhas. Fiquei feliz em vê-lo. Me animei. Festejei. Me perdi. Quando dei por mim já estava na hora de partir. “Bora filho vamos. Perá, mãe. Preciso ir ao banheiro.” Mãe perou. “Te dou carona filho.” Na ponta do lápis da hora de relógio, 20 minutos se escoaram na pia da felicidade do amor materno. Vale. Vale.
Descemos para pegar o Uber. Mala grande com 50 livros. Mala pequena com equipamentos. Mochila com objetos pessoais. Chico com mala, mochila e violão. Na hora de fechar a porta do carro da Sueli, nossa Uber de Zafira, chega Thiago, meu revendedor de Nespresso, trazendo as cápsulas que pedi para levar à Bahia. Mais um volume no porta-mala.
Bora, Bora.
Tudo lindo se São Paulo não fosse a cidade susto da hora de relógio. Os cinco minutos que gastaria para a carona se multiplicaram por 3. Quando meu filho desceu, o waze avisava que eu chegaria no aeroporto as 17h30. Estava morta antes de partir.

Achei que era exagero do algoritmo e errei em não despachar com meu filho minha mala cheia de livros para vender na palestra. Fui brigando com a tecnologia, inventando caminhos que deixaram a motorista, de origem japonesa, desconcertada e de olhos arregalados.
“Dona Sueli, por favor, vire à direita. Pronto, agora à esquerda.  A 100 metros, vire à direita novamente. Ziguezagueando fomos em direção a CGH fazendo loucuras que prometi nunca mais fazer desde que troquei o tempo do crachá pelo tempo do relógio.
Pelo WhatsApp comecei a implorar ajuda ao meu filho.
– Busca os voos para Curitiba
– Procura o telefone da Gol em CGH
– Descobre se meu voo está na hora
Nada funcionava. Nada dava certo. O trânsito piorava a cada segundo. Os faróis pareciam triplicar o tempo no vermelho. Quase chegando, um enorme caminhão decidiu bloquear a rua para fazer uma complexa manobra. A esta altura eu já fazia as contas de quantas horas levaria dirigindo e pesquisava como alugar um carro.
Dona Sueli, condoída com meu drama, teve uma atitude disruptiva: furou o primeiro farol da carreira Uber dela. Com lágrimas nos olhos agradeço baixinho. “Obrigada dona Sueli. É muito importante para mim.” Ela sorri, contente.
17h30, hora de relógio, adentrei feito uma louca em Congonhas. Correndo, fui para o guichê prioridade da Gol. A mocinha de laranja me viu e antes de eu balbuciar “Cu..”, disparou: já fechou o despacho. Com essa mala você não embarca.” Me jogaria nos joelhos dela se percebesse algum tipo de emoção em seu sorriso cínico.
– Mas eu já fiz o check in…
– Então embarque sem a mala, ela devolveu, fria.
A platéia ao redor assistindo meu desespero, sugeriu: coloca no guarda bagagem do subsolo.
17h35 de relógio, rumei para a escada rolante. A essa altura, minha mala grande dava sinais de fadiga. Não corria mais pelos corredores. Se arrastava barulhenta porque uma das rodinhas havia desistido da sua função. A outra pequena de mão, rebelde, batia em quem se atrevesse andar ao meu redor.
Quando entrei na escada, um movimento mal feito deu cabo da sacola Nespresso que eu carregava. Cápsulas de café Leggero e Ristretto voaram em direção piso térreo do aeroporto, aquele que conduz ao estacionamento. Até os executivos esbaforidos pararam para assistir a cena pastelão da ex-companheira de viagem.
Com o rabo do olho, vi um segurança vindo em minha direção. Fui imediatamente injusta com ele.
– Moço não briga comigo, por favor, apelei.
Nada disso. Ele apenas queria, solicito, me ajudar. Assim o fez. Ajudou a juntar as cápsulas e carregar as malas. O homem do departamento de bagagem pegou tudo, depois que catei a roupa de palestrante. Solidário, me liberou do pagamento antecipado. Claro que eu não tinha dinheiro, só cartão. Meu filho tinha levado os 50 mangos da minha carteira.
Com mochila, malinha é um tanto de tralhas na mão disparei para o embarque às 17h44.
– por favor, meu voo vai decolar
– por favor, meu voo vai decolar
Repeti tantas vezes, com tanta convicção e súplica, que todas as barreiras foram se abrindo. No raio X passei de relógio e cinto. Se fosse terrorista…No alto falante, ouvi pela primeira vez o meu nome. Claudia Giudice dirija-se imediatamente ao portão número 8. O voo para Curitiba está encerrado. Ah, terror. Terror.
17h51, alcancei o finger. Estava suada, vermelha, desmilinguida, transfigurada. Enfim, era um vexame. Quando viro a curva, alívio. Faltavam 8 pessoas para embarcar. Minha falta de hora de relógio não estava atrapalhando uma multidão. Quando entrei no avião senti uma enorme vontade de chorar. De raiva. De dó. De pena. De gratidão. De arrependimento.
O comissário leu meu transtorno e ofereceu água, que aceitei humilde.
O tempo é de Deus, portanto coisa séria. Hora de relógio é igreja. Não dá para esticar nem puxar. Ou respeita-se ou purga-se. Juro nunca mais passar por isso. Especialmente agora que o tempo é meu e, na medida do possível, faço dele o que eu quiser.

A carne louca da Villar é de enlouquecer

 

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Eliana e meu filho, Chico, em abril deste ano, no lançamento da Carne Louca da Villar

 

“Hoje tem carne louca da Villar.”

Essa frase era sussurrada como um segredo valioso nos corredores da empresa. Quem contava sorria. Quem ouvia, sorria também. Era a senha que garantia que o final de tarde seria saboroso e alegre. Foi no início do século XXI que eu ouvi o alerta pela primeira vez.

Foi no começo do século XXI que conheci Eliana Villar, a chef criadora da carne louca mais gostosa que já comi. À época Villar era produtora free-lancer de um evento batizado de “Tempo de Fazer” organizado por uma de publicações dedicada à artesanato, corte  e costura, bordado e outras “manualidades”. Competente, eficiente, dedicada e guerreira, não demorou para ser contratada e ostentar, com orgulho, um crachá. Os colegas, claro, aplaudiram. Eliana adorava agradar a turma trazendo sua carne louca nas festas de aniversário do departamento.

Há dez anos, começamos a trabalhar na mesma área e ficamos amigas. Portanto, deixo claro que este texto não é imparcial e está impregnado de carinho, respeito e muito querer bem. Garanto, no entanto, que a história é boa e deliciosa.

Enquanto comandava um time craque na produção de grandes eventos – camarotes, prêmios, festas de Réveillon, exposições etc – Villar começou a cozinhar para fora. Era um jeito prático de ganhar um a mais para ajudar nas contas, trocar de carro, financiar a tão sonhada casa própria. Sim, já disse que Villar é guerreira. Se o tempo está ruim, ela dá um jeito de fazer ficar bom. O sucesso das quentinhas com carne louca foi imediato. Vários colegas de empresa faziam encomendas gordas para o final de semana. Acendia ali uma luz. Eureka.

Sempre que a vida corporativa ficava dura, que o troca-troca de chefes tornava a rotina mais complicada, falávamos de ter um plano B. Eu já sonhava com minha pousada. Villar dizia que compraria uma kombi para vender sua carne louca na esquina. Sonhávamos acordadas, mas o prazer de trabalhar e o orgulho de carregar o crachá que tínhamos não nos deixava tirar o pé do chão.

Inaugurei minha pousada em 2012. Fui demitida em 2014 e comecei a viver minha vida sem crachá. Eliana Villar sobreviveu ao passaralho dos chefes. Seguiu na firma e no comércio paralelo da carne louca. Até que uma pedra cruzou o seu caminho. Pedra do tipo pedregulho, insignificante, mas que incomoda o pé. O pedregulho, apesar do tamanho mínimo, mandava na escalação do time. Villar dançou no final de 2015. A hora da guerreira virar empreendedora estava chegando.

Dona de um networking fabuloso, conhecera e acompanhara por causa do trabalho a chegada no Brasil da onda dos food trucks. No lugar de kombi, por que não um tuk tuk? Em sociedade com seu marido, o fotógrafo Fábio Duque, investiu em um charmoso equipamento para vender sua imbatível carne louca. Em 16 de abril deste ano, inaugurou o novo negócio cercada de amigos queridos. Sucesso absoluto. (Veja as fotos

Desde então, ela e Fábio estão em todos os lugares da capital paulistana. Shopping Center na zona leste, museu da Casa Brasileira, no Jardim Europa, porta de empresa, inclusive na ex-empresa, desfile do São Paulo Fashion Week, na pista do Design Weekend no Jockey Clube. Um luxo. Uma ralação absurda. Um resultado recompensador.

No último domingo Eliana me mandou uma mensagem de voz.

— “Clau, arrebentamos no DW neste final de semana. Decidi comprar quatro garrafas de prosecco, doze taças de acrílico e vender a bebida junto com a carne louca. Sabe o que aconteceu? Vendi tudo e tive que comprar mais quatro garrafas. Cobrei 15 reais a taça. Uma loucura.”

— “Que bacana, Villar.” Eu respondi também em mensagem de voz e não esperava ouvir o que ouvi.

–“Clau, tive a ideia de vender prosecco inspirada na história do menino João do seu livro, A Vida Sem Crachá. Lembra? Ele aproveitou um congestionamento para vender água? Aproveitei o público classe AAA para vender uma bebida quase tão cara quanto o meu lance. Estou muito feliz.”

Eu também estou feliz por você, Eliana Villar. E tenho certeza que o menino João ficaria muito orgulhoso por ter inspirado o seu sucesso. E para você que está com água na boca, louco para comer a carne louca da Villar, basta segui-la para descobrir onde você encontra a delícia.

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“Nada é perfeito”

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Domingo, véspera de férias. Fim de um evento importante e trabalhoso. As bodas de 25 anos de um casal querido de Sergipe, que preparou a festa com meses de antecedência e muito carinho. Cansada e feliz, desperto para o último serviço do final de semana. Ao servir o café da manha, a senhora Mary, hóspede do apartamento 3, anuncia:
– Claudia, não resisto. Vou levar o presépio nordestino para mim.
Meu coração vibra no peito. Ela também se encantou com a arte do menino Leonilso, um jovem alagoano que usa boné virado ao contrário e cria lindezas de barro. Discípulo de João das Alagoas, o rapaz, apelidado de Galego, é talentoso e dedicado. Gosto dele. Por isso, a minha felicidade irradia em três direções.
1. Vou encomendar outras peças para Galego, que ganhará o pão de cada dia com a arte dele.
2. Meus olhos acertaram na escolha. A peça, cobiçada dias atrás por outra cliente, vendeu em apenas uma semana de exposição. Bingo.
3. Vendi várias peças nos últimos dias. Minha neófita carreira de comerciante não está de todo ruim. Com as vendas, aprendo a comprar e a precificar.
Genuinamente satisfeita, corri para o escritório disposta a fazer o melhor embrulho da minha vida. Afinal, Dona Mary merece. Com cuidado, enrolo rolinhos de papel higiênico branco em torno das peças. Os personagens ficam parecendo múmias egípcias. Finalizo envolvendo o cacto que abraça toda a peça. Vou atrás de uma caixa, onde eu possa fazer uma “caminha” para deitar a obra. Assim, ela ficará protegida e firme e não sofrerá com os solavancos do carro. Encontro uma na medida. Forro o “chão” com papel bolha. No cantos mais papéis. Quando tudo fica pronto, pego a peça carinhosamente. Começo a deitá-la na caixa. Estou emocionada.
Por um lapso de segundo, me distraio com um movimento fora da sala. O dedo indicador que segura uma ponta do cacto com exata firmeza escapa. Afunda no papel. Ouço um crec seco.
Quebrei.
Sinto vontade de chorar.
Quebrei. Quebrei a peça que eu tanto amara. Meu excesso de zelo em protegê-la a destruiu. Agora, enquanto escrevo, lembro de inúmeros casos de amigos, conhecidos e parentes que cometeram essa besteira na vida amorosa, na criação dos filhos, na gestão empresarial. Na hora do desastre, fiquei tão transtornada que não consegui pensar em nada.
Agi por instinto. Procurei correndo uma cola para tentar, desesperadamente, consertar meu erro. Às vezes dá. A fratura fica imperceptível. Não é o caso dessa vez. O rei mago do sertão, que traz um pote de cachaça para celebrar o Menino Jesus, ficou lanhado. Claudicante, como eu.
Envergonhada e chorosa, volto ao salão para dar a triste notícia a Mary. Me aproximo, puxo-a pelo braço e lamento:
“Uma coisa horrível aconteceu. Cuidei tanto da peça que eu a quebrei”.
Ela me fita primeiro com horror. Depois, adivinha o exagero das minhas palavras, e pergunta com doçura: “Espatifou tudo?” Nego, primeiro, com a cabeça. “Não, soltou um homenzinho. Eu já colei, mas não ficou perfeito. Me perdoe.”
Mary deve ter mais de 70 anos. Fico sabendo depois que é psicanalista. Com a sabedoria que a ciência e a vida dão, ela me olha com dó e simpatia enquanto explico como o dedo escapou e o tamanho da besteira que fiz.
“Não tem problema, Claudia. Quero a peça do mesmo jeito. Achei-a linda. Não sou colecionadora e faz tempo que eu sei que nada é perfeito. Agora, ela até ficou melhor, mais bonita, porque ganhou uma história. Me preocupo apenas com o seu sofrimento. Não fique triste. Nada é perfeito.”
Segurei nas mãos de Mary e olhei-a com a maior gratidão que pude exprimir.
“Obrigada. Você tem razão. Nada é perfeito. Principalmente eu.”
Que a memória deste domingo extraordinariamente imperfeito dure para sempre.

Eu adoro receber críticas

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Mentira. Eu detesto receber críticas. Mas, às vezes, eu preciso ser criticada. Tirar nota baixa. Tomar puxão de orelha. Ouvir reclamação.

A crítica me deixa louca. Ela é o combustível da minha inquietude e do meu perfeccionismo. Sempre que alguém reclama, fico tomada por uma energia que me faz perder o sono, a fome e a preguiça. Me torno insana. Alucinada para consertar e agradar.

Sempre fui assim. Desde criança, bastava me desafiar. Provocar. Dizer que eu não ia conseguir. Ficava com sangue nos olhos, tipo touro louco e ia buscar o resultado.

Meus melhores professores, meus treinadores excepcionais e meus chefes inteligentes descobriam logo este meu defeito (ou qualidade) de fábrica:

“Claudia, você não está estudando nada. Duvido que passará de ano. Pronto, bastava essa conversa para eu, obsessivamente, estudar a matéria. Meu cérebro, tarado, produzia sinapses com o simples estímulo “ele vai ver quem não vai passar. Vou tirar dez. Saberei tudo desse assunto.”

Idem na partida de tênis ou no jogo de handebol. O técnico vinha e provocava. “Jogando desse jeito, voltará de bicicleta para casa. Vai perder de 6 / 0, 6/0. Bingo. O monstro da competitividade se apoderava de mim. Fúria. E tome ace no adversário.

Quando cresci, tentei moderar e equilibrar essas forças. Melhorei. Mas não fiquei curada. Tive um chefe que eu adorava. Ele descobriu nos meus olhos azuisesverdeados a minha doença. Bastava eu ficar longe do objetivo para ele aplicar o xeque-mate:

“Que pena que o projeto não acontecerá mais no ano que vem. O resultado desse ano está tão ruim… Estou triste sabe. Você lutou tanto por isso.”

Pronto. Ele sabia que bastava fingir tristeza, empatia, solidariedade, como se ele fosse doce, para eu virar na giraia e devolver:

“Nada disso, presidente. Apesar do seu time não estar fazendo o trabalho que deveria fazer, porque já fez o número dele com a outra marca, vou conseguir vender. Ou não me chamo Claudia Giudice”. E lá ia eu para o mercado, para a rua, para o raio que o parta, bater a meta. Sempre funcionou e, por isso, sigo atendendo, orgulhosamente, pelo nome.

Recentemente, graças a Deus, aconteceu de novo. Uma cliente chamada Elizabeth se hospedou em minha pousada. Gostou de tudo. Foi gentil. Educada. Fez uma ótima avaliação, mas…mas fez críticas duras e corretas sobre a minha capela. Reclamou que tudo era lindo e arrumado e a capela, que dá o nome à pousada, estava suja, tinha santos feios, estragados. Dizia que achava um erro, um absurdo.

A crítica, corretíssima, fez eu sentir dor de estômago imediata. Fiquei remoendo. Remoendo. Por que eu deixei a capela naquele estado? Por que não tive coragem de tirar aqueles santos que sempre achei horríveis? Por que? A resposta infundada era uma recomendação/ameaça da antiga decoradora da casa. “Não mexa na capela. Deixe tudo como está”. Eu, com minhas idiossincrasias e pequenas superstições, acatei. Tonta. Burra.

Cinco anos e uma Elizabeth depois da quase praga, criei coragem. Mudei tudo. Limpei. Enfeitei. Hoje acontece o primeiro evento – uma boda de 25 anos – com as novas imagens. Estou feliz e orgulhosa. A capela está linda.

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Eu detesto receber críticas. Elizabeth, obrigada pela crítica.

 

 

 

 

 

 

O mundo é grande e cabe numa janela sobre o mar

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Amo este poema do Carlos Drummond de Andrade. Não sabia que era dele. Conhecia os versos na voz da Maria Bethânia como introdução de uma série de cantigas de roda que ela canta no disco Pirata, lindo, lindo.

O poema, o disco, o texto, a foto pertencem a uma seqüência de histórias que se entrelaçam. É um novelo tão lindo, que decidi desfia-lo aqui.

Tirei a foto no Museu do Frevo em Recife. Fui para lá participar da Fenearte e garimpar arte popular, minha atual paixão. Estava em Olinda, na pousada, uma pérola barroca no meio do caos, quando li o artigo da Adriana Setti sobre a mudança dos pais dela para Barcelona para um sabático de um ano. No texto, ela conta como eles mudaram de vida no sentido de simplificar, baratear, reduzir, desfrutar e com menos, viver mais.

O pai de Adriana é Ricardo Setti. Ele é meu amigo. Foi meu colega e chefe na Abril. Foi generoso ao ponto de revisar e comentar toda a minha tese de mestrado. Em 2001, conheci, em primeira mão, o projeto atual de vida dele. Foi insólito. Tanto que vou contar. Sem romancear, mas com detalhes.

Ele era meu chefe e me apoiava em um projeto de revista, a Tudo, que era todo torto e por isso não dava certo. Em paralelo, eu estava tentando engravidar do Chico. Tinha operado de endometriose. Estava frágil e maluca, tomando injeções de hormônio na barriga. Um dia Setti me chama na sala dele e diz: “Claudinha, estou partindo. Fiz 55 anos, vou viver da minha previdência privada e das minhas economias. Vou viver a vida. Gastar menos e aproveitar mais. Meus filhos moram na Espanha. Em breve, terei neto…”

A proposta dele era sensacional . Eu mesma, naquela época ainda nos trinta, me preparava para isso desde os 15… Mas não consegui sorrir nem vibrar. Comecei a chorar feito um bezerro. “Setti, por favor, não faça isso. Preciso da sua ajuda. Como vou sobreviver a tudo isso sem você me apoiando?”. Setti, para quem não o conhece, é um lord. Tem fairplay e aplomb no DNA, é gentil, generoso e elegante. Mas ele nunca, jamais, esperou que a funcionária mais casca-dura, mais trator, mais obreira que ele tinha, fosse cair em prantos na frente dele. Constrangido, tentou me consolar. Foi empático.

Enxuguei as lágrimas, toquei para frente e um dia, nove anos depois, fui promovida para o cargo que ele tinha. Quando a notícia foi divulgada, ele me mandou um email lindo de parabéns.

Lendo o artigo da Adriana na mesa do café, com o perfil de Recife ao longe, lembrei de tudo isso e me dei conta das voltas que a vida dá. Naquele remoto 2001, eu tinha muitos planos futuros. Mudar e simplificar estavam no horizonte, longe, longe. Na mira, estavam engravidar, ter filho, trabalhar, ganhar dinheiro, ser promovida, ser diretora do diretor, ser fodona, ser mandona, ser a todo-poderosa. Setti era todo-poderoso e eu não entendia porque ele queria abrir mão daquilo tudo tão cedo. Ele só tinha 55anos.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

Depois de ler o artigo e me derreter com tantas memórias, fui para a rua, visitar o Recife antigo. Quem vive de passado é museu e eu sou um museu ambulante. Péssima companhia de viagem, aliás, porque quero entrar em todas as igrejas, visitar todos os museus, por mais mambembes que sejam. Distribuo exclamações de encanto frente a cacos de azulejos portugueses que não arrebatam nem piolho de cobra. Paciência. Por enquanto sou assim. Por enquanto, disto não estou disposta a me livrar, a abrir mão.

Visitamos a primeira sinagoga das Américas. Depois o museu dos bonecos gigantes. Na seqüência, o museu do Frevo. Pirei. Dá-lhe história da música e da dança que nasceu do povo para o povo. Quando subi para o último andar, dou de cara com a janela que enfeita esse texto.

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Poucas obras conseguem sintetizar a essência da vida, do amor e do que é simplesmente relevante. Uma dúzia de palavras, um mundo de significado. Em questão de horas, o assunto – menos é muito, muito mais – voltava a iluminar meus olhos.

Esse poema-canção se tornou predileto quando meu filho tinha dois anos. Ele aprendeu a cantá-lo depois de ouvir um milhão de vezes o disco Pirata da Maria Bethânia. Ele, meu anjo, em 2004, me ensinava o que era importante. Eu, boba, achei lindo mas não compreendi, de verdade, a mensagem. Só fiquei coruja com a perspicácia do meu bebê.

Na semana passada, estava com Chico quando visitei o museu e vi o poema. É com ele que, agora, aprendo e experimento uma vida que cabe na cama e no colchão de amar. Um mundo numa janela sobre o mar. E as peças do quebra-cabeça foram se juntando, juntando e acho que um novo projeto está nascendo. Menos é muito, muito mais.

Coloca um ponto final.

Menos, Claudia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delícia de empreendimento

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Bicicleta. Brigadeiro. Alguém consegue pensar em combinação mais deliciosa? Brigadeiro é o doce mais brasileiro e mais gostoso que conheço. Bicicleta é o meio de transporte mais gostoso, sustentável e eficiente que conheço. Juntar os dois foi a ideia gênio da paulistana Valéria Borim, ex assistente de criação da área de assinaturas do grupo Abril.

Antes de seguir com a doce história, abro aqui um parênteses. Valéria e eu trabalhamos na mesma empresa. Aprendemos lá, sob a direção do empresário e editor Roberto Civita, duas obviedades fundamentais: trabalhar com prazer e buscar a perfeição para agradar o cliente, ele, o nosso único e mais importante patrão.

Com essa experiência e a paixão por brigadeiros — “desde adolescente, sempre que via uma lata de leite condensado dando sopa, eu a transformava no meu doce predileto, brigadeiro”, Valéria decidiu ir à luta. Em julho de 2015, ela foi demitida da Abril. Em agosto, resolveu que investiria em algo que lhe desse prazer. “Nada me deixava mais feliz do que fazer brigadeiros e ouvir elogios. Todos diziam que eles eram os melhores, que eram deliciosos”, conta Valéria. Com o boom dos food trucks, ela foi investigar e descobriu que a bicicleta poderia ser uma alternativa mais econômica e original. “Era muito mais barato, mais sustentável e politicamente correto. Comprei uma bicicleta cargueiro, que costumizei para deixa-la charmosa. Com ela comecei a vender os meus brigadeiros”, conta. Nascia assim o Brigadelícias Foodbike (https://www.facebook.com/brigadeliciasfoodbike/?fref=ts)

De cara, foi atrás do Sebrae para fazer um plano de negócios. Feito. Depois, foi atrás do Senai para fazer cursos específicos de chocolateira e, principalmente, para ter o certificado de manipulação de alimentos. Feito de novo. Desde então, está em busca de uma concessão da prefeitura para ter um ponto específico para vender os doces. Faz um ano que aguarda a legalidade. Enquanto não vence a burocracia, Valéria realiza parcerias com lojistas, que a abrigam nos estabelecimentos deles. “Entro em contato e peço para vender dentro ou na frente da loja. Por enquanto, estou tocando assim”.

O cardápio é variado e delicioso. A nova empreendedora fez o curso de brigadeiro gourmet  no Senac e usa o aprendizado para definir os sabores principais. Pistache, chocolate ao leite, chocolate meio amargo….Sempre que sai para vender, leva, no mínimo, seis sabores. “Às vezes, inventando conforme à época e o meu próprio gosto. Em junho, por causa do São João, fiz brigadeiro de paçoca, de limão, caipirinha… Já o brigadeiro de pistache nasceu porque eu adoro pistache. Agradou”, diz a “brigadeirista”, que faz tudo sozinha para rentabilizar ao máximo o novo negócio. Ajuda ela tem apenas da filha de 11 anos, sua parceira e incentivadora, e do marido que colabora com a logística e o transporte da bicicleta. No caso de Valéria a bicicleta é o suporte de vendas, mas não o meio de transporte. Junto com o veículo ela leva um ombrelone, caixas e materiais, o que inviabiliza chegar ao destino pedalando.

“Descobri nestes doze meses de empreendimento que além de amar fazer os brigadeiros, curto pra caramba vender. Adoro ter essa proximidade com as pessoas, me faz bem! Estou feliz, até tive alta da terapia. Agora quero crescer “, diz ex-funcionária, que conta com as redes sociais e o boca boca dos amigos e clientes para encontrar novos consumidores. A meta dela agora é expandir o negócio ao ponto em que possa viver disso. O Brigadelícias Foodbike já dá dinheiro mas ainda é um complemento de renda. “Acredito que em breve vou poder viver do que ganho com minha paixão”, afirma Valéria Borim. Ficou com a boca molhada de vontade? Encomendas por whatsapp, facebook e celular. Além de um projeto lindo, organizado e eficiente, é mesmo uma delícia.

O dia em que a Claro me dispensou como cliente – e não foi por falta de pagamento

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“Sinto muito, senhora. Não há nada o que eu possa fazer. Para a senhora, não tem plano especial, nem promoção. É preço cheio mesmo.”

“Mas senhor, sou cliente há tantos anos. Já tive quatro assinaturas da NET. Todos os funcionários da minha empresa tem celular da Claro. Eu tenho, meu pai, meu filho. Se eu sair, vai sair todo mundo.”

“Sinto muito, senhora”.

“O senhor está sugerindo que eu mude para a Vivo?”

“Boa noite, senhora”.

A conversa acima não é ficção. Tem número de protocolo. Foi presenciada pelo vendedor da loja Claro, que de mãos atadas, sugeriu que eu ligasse para o 1052. Quando desliguei o celular, segurei a cabeça com as mãos, e com voz embargada, implorei: “Moço, me ajuda! O que eu faço agora? Imagina o trabalho de migrar 15 celulares?”. Ele, empático, respondeu sem temer pelo próprio emprego: “Liga para a Anatel. 1331. Eles vão lhe ajudar”. Agradeci e sai da loja da Claro, em Salvador. Era a segunda que eu visitava a empresa naquele dia à procura de ajuda. Meu celular havia sido desligado ontem e religado após súplicas do meu pai, um septuagenário com cara de vovozinho. Hoje acordei com mensagens apocalípticas pipocando a cada cinco minutos.

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Confesso, senti pânico.

Como vender diárias, atender clientes e preparar o lançamento do meu novo projeto sem celular, 3 G, whatsapp, google e safari? Como viajar para Recife na terça-feira? Como dar assistência aos meus pais que estão a 2 mil quilômetros de distância? Como controlar meu filho na segunda quinzena de férias quando estaremos separados? Como pagar contas no banco, checar os depósitos e organizar a folha? Como acompanhar no FB o que os amigos estão fazendo, enquanto trabalho nas férias?

Com essas dúvidas randômicas perturbando meu juízo, pensei no óbvio.

Será que o atendente sabe qual é o custo que a companhia tem para conquistar um cliente?

No meu caso, o desprezo pelo meu problema significam 15 migrações. Será que ele já ouviu falar da taxa de churn? Será que ele conhece as metas de conversão e renovação do time de vendedores? Será que o descaso pelas minhas linhas é pessoal?

Claro que não. Regras são regras.

No dia em que decidi viver entre São Paulo e Bahia e, por isso, cancelar minha NET, meu telefone fixo e minha internet do Itaim Bibi, logo abrir mão do ComboNet, meu tornei infiel. Cai na vala dos párias. Não importa que já tive várias assinaturas no meu CPF. Também não importa que não trouxe a NET para a minha Capela porque em Arembepe não tem sinal da NET. Regras são regras. E todas as regras, sem a exceção, são burras, intolerantes e radicais.

Sai do Shopping com o modo dados celulares inativo. Pai de santo total. Posso bolar um reality show. Escrever um novo livro.

A vida sem celular.

A história de uma cliente fiel que foi rejeitada pela Claro e deu a volta por cima filando wifi dos amigos.

Em agosto, quando voltar à São Paulo, prometo contar qual foi o meu plano B e para onde migrei. Até lá, vou rever todas as minhas leis e regras de gestão. Talvez, sem prestar atenção, esteja sendo tão obtusa e burra quando eles estão sendo comigo.

Eles querem ser gigantes e estão matando um pequeno como eu, que multiplicado por milhares de outros pequenos, pode fazer a diferença no final do mês. Tchuco, tchuco kkkk para mim.